PRECISO ESCREVER SOBRE UM GRANDE LIVRAMENTO E PROVIDÊNCIA DIVINA
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Hoje eu sei sobre a verdade oculta nas entrelinhas dos créditos finais a toda aquela gente que deixou algo de si em alguns filmes que de tão belos até me falta a palavra perfeita, então direi sublimes. Sim, sublimes ao ponto do arrebatamento.

Hoje fui arrebatada por uma obra assim e fiquei impregnada de uma vida que não era a minha e toquei a emoção que também não era a minha, mas a vivi até a alma exposta. 

Era sobre a vida de alguém e havia um tom íntimo, todo íntimo, muito pessoal. Eu não podia julgar, apenas tive respeito. Em algum momento era a minha vida também. Sozinha, eu queria estender a mão, mas somente acompanhava quieta e sentia cada cena, cada palavra, cada silêncio. E entendia todo silêncio que havia, toda humanidade nua e crua, toda fraqueza exposta, todo mistério não revelado e um êxtase que não cabia em mim, era triste, mas era lindo e lindo. Eu entendia seus porquês e escolhas e o belo e a arte, era genialidade que comove e se deseja perpetuar e se busca com esforço preservar. E houve muito esforço.

Mas a genialidade pode ser perturbadora, pode ser o amor em agonia e também pode conduzir a caminhos tortos. E o gênio perdeu-se e todos perderam um tanto mais ainda. Mas o caminho já anunciava o seu fim desde o início. Mesmo assim um susto e um sofrimento inevitável. 

Então, assim descobri porque são necessárias as letrinhas miúdas correndo pela tela e a música ao fundo correndo junto com a emoção da gente. É que é preciso caber nesse tempo um olhar mais demorado, reordenar os sentimentos, destravar a garganta e guardar quase que alcançando com as próprias mãos e acomodar o mais profundo e seguro possível dentro do peito o sentimento, a essência, a alma de uma obra que não permitirei que se perca jamais, não em mim. 
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RIQUEZA

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A maternidade é um grande baú de tesouros inesgotáveis. A cada dia uma jóia capaz de encher a vida de significados é encontrada. A existência toca a plenitude e vai se tornando cada vez mais rica.
Meu filho me ama de forma tão espontânea e me cobre do ouro do seu amor. Todos os dias são mil declarações, estando eu magra, gorda, penteada, descabelada, divertida ou uma chata de galochas. Enfim, me ama e isso significa muito e tanto que me ensina, me aperfeiçoa e transbordo sem uma palavra possível, mas por hora usarei gratidão. Sou grata.

Mas tenho que ficar atenta, pois ele sabe também ser peralta! E não posso lhe negar a disciplina só porque conhece tão bem os caminhos do meu coração.
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Estou tão brava!
Eu olho pra você e não te vejo. Não há nada. Eu busco nitidez, um foco, mas você quebrou todas as minhas lentes.

Estou tão brava! Mas é comigo mesma. Eu errei demais. E não adianta dizer que estava tentando acertar. A realidade é que nossos erros nos alcançam sempre e nos encaram bem de frente. E o grande susto não é ter de enfrentá-los, é acertar dessa vez.
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PERDOÁVEL

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Estou ofendida. Como é que ainda consigo me ofender tanto com a falsidade possível do ser humano? A falsidade é uma ofensa. A natureza humana é um tanto complexa e permite muitos rodeios e impressões até a plena verdade. Mesmo que a verdade seja a mais pura constatação do estado de ser duas caras. Sentindo desde modo, acabo procurando em mim essa condição humana que me fez chorar, talvez por puro orgulho que alguém tenha feito chacota de mim, é que me senti traída.  
Mas creia-me, o que ofende mesmo não é o escarnio, é quem o faz.

SOBRE A FELICIDADE

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Tem gente que não sabe ser feliz. E o mais triste nisso, é que nunca serão. Porque a felicidade ou é um dom ou um aprendizado em que se gradua com muito esforço ano a ano, a cada situação vencida ou não. Sim, porque nem sempre vencemos e isso é um fato, mas ser feliz pode ser uma escolha. Eu respeito a sua.
O que me dói é ver que há pessoas que nem sequer sabem reconhecer a felicidade em suas tantas formas e vão se perdendo insensíveis e ingratas. 
Então, não percebem quando ela sorrindo passa correndo, pulando e ainda acena. Quando emburrada não quer sair da cama e faz cena, faz drama. A felicidade as vezes passa do ponto e vem com gosto de queimado, as vezes é um remédio amargo e muitas vezes requer sacrifícios e muito cuidado. Por vezes não é apreciada quando brota cuidada na varanda, ou tão sozinha e nativa desbrava a terra e floresce.
A felicidade tem um sobrenome que as pessoas detestam e então ignoram. Mas é verdade, a felicidade vai à escola e dá muitos anos de trabalho. Faz-me algumas exigências pelas quais trabalho mais ainda. E volta ao trabalho e bate ponto, cumpre suas tarefas e leva pra casa os seus resultados.
Ela precisa de acordos e uma manutenção cautelosa. Por vezes se mostra frágil e se abala com a dureza da fala, com a indiferença dos atos.
O sol entrando, o cachorro latindo o que por um momento me interrompe... um brinquedo esquecido no meio da sala, a prova com data marcada, não é também felicidade? A felicidade é meio doída.
A felicidade põe a mesa, tem despesa, faz as contas de cabeça para não estourar o orçamento, faz a cama, faz planos.
Ela vem ao meu encontro quando chego em casa, me abraça, me beija a face e sempre diz: Oi. Ela tosse a noite e traz preocupações. E sem que eu espere abre um sorriso espontâneo e me faz uma declaração de amor. Se encaixa no meu colo de mansinho e exige carinho.
A felicidade é essa garatuja colada no meu guarda-roupa e a outra riscada na parede da sala, o que deveria me deixar brava, mas eu só sei admirar. A felicidade é meio boba.
Não saber ser feliz deve doer, mas tem coisa mais dolorida. Há os que não sabem o valor da paz. Por isso não evitam a discórdia, não se afastam do mal e se deixam contaminar. Será que não conhecem o peso da palavra leveza? O esforço para chegar a  harmonia, a luta por trás do sossego?
Quem não sabe ser feliz, que tente pelo menos, exercite. É preciso algum tempo e pode-se aprender observando o passarinho, entendendo o lírio do campo, a correnteza do rio, doando uma porção do seu tempo, arrancando com a própria mão a angústia de alguém. Na verdade tem gente, e é com muita tristeza que digo isso, jamais serão felizes mesmo, porque ignoram que ser feliz é saber fazer feliz o outro.
E há coisa mais grave e severa ainda, é quando a indiferença e o egoísmo são tanto, que existem pessoas que passam as horas, dias, meses, anos, uma vida inteira por conta do próprio umbigo e pra essas pessoas nada do que eu disse, nada, faz o menor sentido.
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Creio, e é convictamente mesmo, que os homens são de uma espécie bem distinta das mulheres. São de uma natureza atoleimada, talvez ainda em evolução: o homo-imbecilis  cujo seu maior objetivo no mundo é o caos.
Haja luz, soam as palavras Divinas e eles correm. Alguns se escondem como demônios expostos a santidade e clamam para que não sejam atormentados antes do tempo. Porque não acreditam na eternidade do felizes pra sempre. Porque com a própria a mão  destroem a harmonia e vão construindo ciladas ao longo do caminho onde eles próprios serão também atormentados.
Bestas feras, não sabem que é com amor e paciência e muita abnegação que se formam as novas gerações? Não sabem que amar é atitude e não palavras? Desconhecem que a palavra trouxe a existência a criação?
E vivem uma vida medíocre em algum cômodo subterrâneo de insanidade e bobeiras. Seres hediondos bestializados e demonizados em suas trevas noturnas.
E nem direi mais. É que hoje eu não sou paz, eu sou guerra. Eu sou a própria guerra perdida pedindo paz. Eu sou a bandeira branca e trêmula que loucamente acredita e varre os escombros e refaz recomeços.
Minha paz dura a era de uma semana e tem que bastar para os séculos de peleja.
Aí eu já era inteira. E hoje em partes busco ser completa.
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Hoje eu quero a leveza da pluma. Desejo o rosto todo calmo iluminado e o olhar franco e seguro. Quero ser eu quem derruba os muros. 
Que os gestos sejam suaves e inspirem confiança. Quero em tom perfeito a fala, a palavra que acalma e desperta. Quero o dom de quem se cala e ouve.
Desejo em harmonia os sentidos e o coração sincero e puro. Quero um passo parindo o outro, indo de encontro ao futuro.
Eu quero a memória das coisas de infância com cheiro de terra molhada da chuva que derrama esperança. E que os frutos do que se espera sejam generosos.
Tem dias que é preciso toda brandura que caiba no peito, toda largura de alma e a fé permeando tudo. Não que nos outros dias não se queira, não se peça, não se busque. É que tem dias que é preciso muito mais, é preciso intimidade com a paz.
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Coberta de sono e sonhos a menina deita em sua cama voadora. Aconchega-se em seu travesseiro de fronha amarela, fecha os olhos e ansiosa espera. Mais um tempo e já dorme, outro tempo e decola. Que frio na barriga! Mas é que sempre vale o susto pra viajar de pijama a bordo da sua cama e orbitar a terra.
E sobe, sobe alto além das nuvens, troposfera, estratosfera, termosfera, exosfera e... Uau! Enfim o espaço sideral. Ela já alcança as estrelas, flutua dona da lua e acena solidária para o astronauta solitário. 
Do alto observa a terra e vê a tristeza dos homens, que a sua irmã mais velha chama de mazelas. Por isso na idade dos sonhos, a menina sonha alto, profundo e verdadeiro. Salva o mundo, combate pesadelos e inventa vacinas para todo tipo de angústia. 
Em sua nave segura, dá asas a imensa busca que a habita e faz grande suas conquistas. Ela, a menina que nem tem consciência da palavra altruísta. 
E quando o cansaço maior lhe alcança, dá corda em sua caixa de música e acorda iluminada de esperança.
É por isso que quando é dia e as tristezas do mundo se mostram mais sérias, ela insiste em sua verdade, que há sempre uma saída.  Há sim, solução a ser construída no mundo da boa vontade. 
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Hoje eu preguei pra mim mesma e levantei a mão e me converti. 
Emaranhada em questionamentos e pressões, eu quis a minha redenção. Mas senti vergonha por querer o socorro só pra mim. Então, eu quis redimir  o mundo das suas dores, eu quis a sua salvação. Eu quis salvar o mundo. 
Eu quis salvar da fome dando comida, quis salvar da ignorância oferecendo educação, eu quis salvar das doenças ofertando cura, quis salvar da maldade, eu quis salvar da malicia, quis salvar da avareza, eu quis salvar da esperteza, quis salvar da violência, quis salvar da amargura, eu quis salvar da falta, quis salvar dos excessos, eu quis salvar...  
E busquei ideias, ideais, pensamentos. Eu fui aos quatro cantos da terra, eu quis a sabedoria dos grandes, quis a filosofia dos mestres, eu busquei nos mistérios do mundo, rastejei buscando um elo, uma luz, perambulei por eras.
Me vi perplexa. Vi que havia sim, soluções para grande parte dos problemas, mas nenhuma salvadora, libertadora, perpétua. Aí eu compreendi, eu calei. Eu me rendi.
Eu não posso salvar o mundo, eu sequer suporto essa carga do desejo que sinto da sua redenção. Eu sequer salvo a mim mesma! É isso. Se eu salvar o homem de todas as suas mazelas, ainda terei que salva-lo de si próprio. Meu Deus, eu que nem salvo a mim mesma.
Aí me converti e chorei e sorri. Meu DEUS, eu preciso da solução que Tu és. Amém. 
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Quando me ocorreu esse pensamento, não me reconheci. Mas era eu já sem desespero, já sem medo, quase dona de mim. Desde cedo  tive e me dei uma liberdade  regrada, algo entre o querer e o discernimento, entre o desbravamento e o medo.  Mas vejo que foi bom e poupou-me de algumas dores. Talvez foi mesmo instinto de sobrevivência.
Hoje vou além da segurança do costume, piso terreno desconhecido, o novo que também intimida, mas que já consigo encarar olhando bem nos olhos e  muitas vezes até prevalecer.
É aí que experimento um sentimento  necessário. Uma compreensão de tempo e espaço. O meu tempo, o meu espaço, a minha experiência e um risco quase calculado. É que viver não tem fórmula, não há equação possível. E vou aprendendo a viver e isso é uma benção.
Agora vejo uma nova geografia, uma exploração responsável, onde aos poucos se alargam os limites e prossigo. Não dá pra dizer o quanto isso me trás de um sentimento de gratidão. E senti-lo representa muito, muito mais do eu diria, mas é agradável e sou novamente grata.
Todos os dias fazemos escolhas e entendo que algumas decisões requerem tempo. É preciso ver, rever, engavetar, redescobrir, compreender. 
Revendo hoje, estou em paz. Sei que segui o melhor caminho.
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Por supor saber a resposta, evitei perguntas essências. Perguntar ofende? As vezes, talvez, não sei. Mas eu não receio a ofensa e nem de me expor ao ridículo. Eu tenho é um medo, um medo espiritual. Meu Deus! É isso que me freia? Que feio ter medo de Deus!
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Foi feito um passarinho ferido que me vi essa semana. Dei um jeito no braço e fiquei sem jeito pra mais nada nessa vida. Meu Deus que dor! Eu vi estrelinhas, eu queria colo, eu queria chorar, eu queria mesmo era gritar.
Mas quando você é valente, metida a forte, ninguém leva muito a sério mesmo. Fiquei quieta. Muita gente pensou que eu estava brava. Brava nada, tava mansa, amansada pela dor.
Mas até que meu esposo me deu crédito e me levou duas vezes pra tomar injeção. Eu tomando injeção! Eu que só de olhar pra uma seringa tenho taquicardia, se aceitei, foi porque o desespero era o meu guia.
Sentir dor às vezes é bom pra gratidão, sabia? Eu garanto. Você só pensa que quando tudo tiver passado, será mais grato pelo tremendo estado do não sentir dor. Aos poucos estou me sentido melhor.

Obrigada Senhor, porque aos poucos estou me sentindo melhor, bem melhor. Amém.

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SOBRE MINHAS ORQUÍDEAS

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"Mamãe, eu não mecho nas suas flores.
Mãe, eu até cuido delas
Principalmente as brancas e amarelas
elas são meus amores,
Mãe, eu nasci pra amar essas duas cores"

Daniel Assafe
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Abraçar é uma forma de doação, é afundar-se em carinho, é um modo de encontrar corações. O tempo de um abraço é um dos mais eternos que conheço e de eternidade poucas coisas são feitas.
Há os que não se permitem tocar e mesmo são incapazes de tal. Mas há solução possível.
Para os muitos tímidos ou severamente bloqueados nas emoções, recomendo iniciar o tratamento como em conta-gotas em forma de pequenas batidinhas nas costas a cada encontro. Depois de verificada a aceitação do procedimento, tenta cobrir-lhe com um dos braços ao ombro e nota qualquer reação positiva, mesmo que ainda haja estranhamento.
Somente após sistemáticas repetições dos procedimentos citados é que deverás ao encontra-la dar um desses abraços demorados onde a eternidade habita e o amor toma forma.
Mas se querem um conselho de alguém bem sistemática... Pra não dizer tímida ou severamente bloqueada: faça de conta que não aconteceu nada de muito importante, chega mesmo ao ponto da banalidade, ainda que saiba que quebrou uma imensa barreira, mesmo que perceba que com este gesto fraterno tenha desencadeado no outro alguma liberdade para trilhar um caminho mais suave onde se pode demonstrar e receber carinho. E creiam-me, muitos rogam por isso.



SOBRE PESADELOS



"Mamãe, eu tive um sonho, só que não foi bom. É que eles colocaram o filme errado."


Daniel Assafe





Ando reivindicando coisas estranhas, um egoísmo manso, mas que demarca bem seu território. Nada meloso, pois que já não é da minha fase, mas algo verdadeiro e pleno de reconhecimento e desejo. Coisas de cumplicidade e do raro que é o olhar na mesma direção.

E por favor, um pingo que seja dessa coisa de pontos incomuns. Não, um pingo não, me dá uma dose bem forte, para que eu não tenha dúvida da experiência. 
É que sinto essa falta, e sinto mais falta ainda do genuíno interesse e do compartilhar que retorna transbordante.  Mas que não seja por educação, que seja puro e verdadeiro até ao ponto de encher o coração.






Tenho uma visão e gosto de lhe dar asas e deixo que se alargue e voe até que um dia retorne me trazendo um raminho de oliveira. 
Vejo que faltou-me clareza sobre alguns dos meus sonhos, aqueles mais pessoais os quais você persegue com todo o seu ser, sabe? Mas nessa visão eu recolho do mundo os sonhos que a vontade não foi capaz de sustentar ou aqueles que a vontade desencontrou com a oportunidade e também se perderam. E vou seguindo buscando compreender quanta força de vontade a vontade precisa ter para vencer.
E acontece assim:  nessa visão sou catadora de sonhos, dos sonhos deixados pelos caminhos da vida. Recolho com a urgência do risco de vida, buscando devolver aos seus sonhadores.
Mas se de fato fosse eu essa resgatadora de sonhos, ajudadora do sucesso alheio, assim realizaria também um sonho meu. É tanta pretensão, mas é só uma visão. E no interior uma vontade imensa de ser útil. Afinal somos o que fazemos, falar não basta.

Mas pode ainda haver outras explicações, é que, querer abraçar as necessidades e carências do mundo é também uma forma de revelar as minhas e revelando-as, revelo-me  e me conheço um pouco mais, e isso é sempre positivo, não?






Tenho na noite meu tempo para agradecer por toda dádiva e liberalidade. Sondo meu coração buscando discernir meus atos, entender  as intenções. É uma forma de organizar meus sentimentos, é uma forma de me acalmar por dentro.
E na prece um pedido aparece repetitivo; é que sempre rogo por sabedoria, mas a sabedoria me faz também uma exigência: experiência, aí peço também por perseverança, sem a qual um caminho não é feito por inteiro.

Escolhas erradas são um aprendizado, uma forma de crescer. E esta é uma boa perspectiva, não como quem banaliza o insucesso, mas como quem luta para não sucumbir ao fracasso. 
Reconhecer, renovar, recomeçar. Eis um humilde entendimento. Oro para entender onde estou e nunca me perder de onde quero chegar.





É incrível como tantos dos afazeres da vida estão diretamente ligados às pessoas que amamos, e esse fato muda toda a percepção das ações. É prudente amar sem reservas, pois o amor se expande na entrega. O amor é um mistério, é um ministério, alguém já disse isso, e é lindo.
É por amar que a fonte interior nunca seca e  na sua perenidade  brota  motivação e força transbordante em bem querer.  
Amar é cuidar e o cuidado envolve tantas urgências que não dá tempo de procrastinar e dizer-se desmotivado. Amo, logo ajo, o amor exige compromisso e é com compromisso que atendemos aos seus cuidados. 
Eu me comprometo  com as demandas do amor, comprometo-me com a ternura que todo o amor merece. Oh Deus! Capacita-me hoje e sempre a exercer o amor por completo. 





Jamais terei gavetas organizadas, não consigo lhes dar qualquer prioridade que seja. Minha necessidade maior e que tem me tomado algum tempo é por ordem a meus pensamentos, tarefa que confesso não tem sido nada fácil. E tem me ocupado ao ponto de que quanto mais organizo, mais terreno desconhecido avisto para sanear. Sanear é como curar e muita cura está bem na forma de enxergar. Por isso, o cuidado redobrado com o sentido da visão, pois é como vejo, que ajo e reajo as situações da vida. E quanto melhor a forma que consigo perceber, tanto melhor consigo viver e conviver.
São dois os pontos em que não permito qualquer tipo de anarquia, fé e família. No mais, o caos insiste em ser co-participante dos meus dias.
O que dizem os especialistas? Pensamentos produzem sentimentos, sentimentos produzem  a ações e ações produzem resultados. E lá vou eu organizar meus pensamentos em busca dos melhores resultados.


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Na manhã corrida da minha semana cronometrada, há uma poesia urbana em vias de composição querendo mostrar-se entre o caos organizado da cidade. E nasce e cresce no quotidiano de todos nós, que ora sentimos, ora somos nós autores desatentos e ora despercebida segue seu fluxo no cotidiano da vida, em cada gesto, em cada esquina. 
Mas ao observador cabe tanto ver o belo quanto a desarmonia, e não falo como quem trata de estética, pois o belo é relativo e isso o torna em algo complexo.
Na visão  irretocável,  um  homem altera a paisagem e me perturba dentro: sentado ao chão, as mãos postas à face, como quem de tudo se desespera, como quem da vida e dos homens nada espera.  
Se era desespero,  embriaguez, insanidade, não sei. Nunca saberei. Somente ficou-me a certeza doída das muitas realidades da vida e de um semelhante sentado em sofrimento em uma paisagem tão linda onde nenhum artista jamais o pintaria.
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Certa vez uma pessoa que eu acabara de conhecer em uma sala de espera de um hospital, após pouco tempo de conversa, mirou-me no olhar e perguntou como "eu" estava. Fiquei perplexa. Havia tanto tempo que ninguém me perguntava algo tão pessoal e de uma maneira que me pareceu sincera e que por algum motivo realmente desejava ouvir a resposta. 
Demorei um pouco a me pronunciar, tanto pelo choque da pergunta inesperada,  tanto pela necessidade que tive de me auto avaliar para responder com a mesma sinceridade algo que nem eu mesma sabia e nem me dava conta.
Respondi, procurando palavras, buscando a verdade. Achei que isso era justo. Sem deixar de perceber com espanto o quanto eu precisava e queria de fato falar. Foi um sentimento indescritível, mas era mais ou menos assim: um estranhamento, porém necessário. Mas minha natureza é contida, entreguei o pude e contive-me.
Ainda assim, obrigada querida desconhecida, e desculpe, pois nem lhe disse ou agradeci, mas naquele dia eu me senti muito importante.
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Tive uns desmaios esses dias... e foi tão brusco, tão abrupto, sem o menor  aviso prévio ou refinamento, que achei de uma tamanha deselegância do cérebro desligar o interruptor assim e me deixar indefesa feito a Terezinha de Jesus.
Quando retornei à tona, desse mergulho do nada, no nada, fiquei naturalmente intrigada com os porquês e causas e efeitos.
Será que há momentos em que o desmaio é uma solução possível? Uma pausa perigosa entre os apertos da vida? E se é uma fuga,  sem a escolha de percurso, sem o momento oportuno, é então um risco que não vale a pena. É um além de um sei lá de entorpecimento, sem se premeditar,  sem dissimulações. Um ato falho. Involuntário, é ausentar-se estando presente, um bloqueio, uma defesa indesejada.
Desmaiar de olhos abertos, pois há também essa modalidade, é bem mais perigoso ainda, e se dá quando a situação é um confronto tão direto e inescapável que  há uma agonia como em ondas. E é  crescente até o ponto de quebrar-se por agigantar-se  além de suas próprias sustentações. É um desmaio que se sofre consciente.
Já tive também desmaios assim, a diferença é que um, te leva ao chão, com ou sem cavalheiro pra te dar a mão, e pode até haver sequelas.  Meu dedo polegar ainda dói. O outro, pode te arremessar nas profundezas da alma, trazer algum desconforto e até sofrimento. Mas se entendido e vivenciado com um coração correto, pode até ser uma forma de cura. Tortura? Não, cura.


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Tenho um cansaço dentro de mim tão cansado, que sua fadiga me aborrece. Tem uns desejos dormindo em mim e o seu abandono disfarçado de sono, se alonga e parece não ter fim. Tem também um absurdo se fazendo de ouvido surdo e uma promessa que tem muita pressa. E tem ainda um silêncio. E o silêncio tem um grito, um grito preso por um fio; por um fio de esperança. O
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VIAS IV



E volto ao ponto final, ao ponto de início, ao ponto do fim. Entendo. Eu entendo a ponto de um voo, voo de libertação e libertação a ponto de salvação. Mas não a salvação do menino que eu vi.
O menino bang-bang, mocinho-bandido entre dois soldados, também pais, também armados. E o menino abaixando a cabeça, deixa escapar da algema um sorriso que pra não ser triste nem fraco é cínico. Mas mesmo assim é desamparo. Desamparo de hoje, desamparo de sempre.
O homem não voa, pensa. Seu grande voo, sua prisão. O menino não. O Menino espetáculo repetido, de uma trupe errante, um bando, uma gang, sem roteiro, sem destino de tudo, sem rumo, rumo ao despenhadeiro. Eu vi mais dois e tive medo. Eu vi tantos.
Eu vi o desamparo do casal de quase crianças que se amparava e criava as suas. A mãe, uma sobrevivente, eu sei porque vi as suas marcas, labaredas violentas corpo abaixo, corpo acima. Na cintura escanchada a caçula e no piso de birras a outra chamava a atenção do pai, menino lavador de carros, levador da vida e já cuidador de família. Ele, ergueu a pequena do chão e também a escanchou na cintura e foi resolver suas coisas. Ela ficou altiva, princesa pobre coberta do ouro da atenção do pai. Pareceu-me bonito que eles não tendo muito, se tinham tanto. E desejei o felizes pra sempre. Eu me consolei com esse pensamento e fui resolver minhas coisas. Grande coisa.



SEMENTE



Gosto desse clima ameno, calmo, temperado, sereno, sem extremos. Nem o frio que me agride, nem a tempestade que intimida.
Tem um silêncio de domingo dormindo um pouco mais. Tem um calor tranquilo de domingo sorrindo, domingo se abrindo em flor, domingo pedindo paz.
De flor em flor, minha orquídea se abriu em domingo e não há como olhá-la sem gratidão por tamanha beleza compartilhada. Mas há quem o faça. Há caos que não permite a gratidão pela flor que floreia e perfuma. Eu rogo para que todo caos se desfaça em ordem plena. Para que se possa desfrutar e fazer valer a pena cada flor que se doa sem rancor  e perfuma as varandas, os jardins, perfumando o amor e a própria vida. E não digo assim pela flor, mas pela dor de quem não pode percebê-la,  ainda.
É certo que cada um tem seu jeito de saborear o domingo, até lamber o prato e aguardar o próximo com gostinho de quero mais. Eu também quero.

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O céu só sabe chover e eu só sei sentir frio.
Calango do cerrado que sou, sinto até uma dor, arrepio.
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NOVO CICLO

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A contagem é regressiva e pulsa o coração desejando vida e os poros suam planos, projetos, expectativas. Tudo é prenúncio de novidades. Antes, somos crianças esperando ansiosos e depois um mergulho na novidade do ano, o romper da fita da chegada, aí  então somos adultos novamente celebrando gratos tão somente o estar e uma onda de fôlego novo no ar.
Além dos novos ciclos meu renovo é diário. Eu me renovo inteira e também por partes, na medida da necessidade também o faço.
Eu tenho de me renovar e não porque ordena o calendário e a meia noite tudo parecerá novo. Eu me renovo porque  é preciso um olhar renovado sobre a vida, porque viver exige, porque os desafios todos os dias o fazem.
Tenho meu jeito de renovação quando o renovar-se continuamente falha. Eu me aquieto por um instante e faço uma pequena prece.  Então paro buscando ouvir Deus. E isso é muito bom. Reparei que esse exercício também me leva a ouvir a mim mesma e isso também tem me parecido bom.
A pouco vasculhava meu interior feito criança fuçando caixa de brinquedos antigos a procura de coisas boas. Encontrei algo velho guardado em um canto de mim. Fiz alguns reparos e vejo que será muito útil para esse novo ciclo.

Já agora sinto o frescor, o perfume e as promessas, é que por causa das crianças tudo é sempre colorido de esperança e tem sabores e cheiros preciosos. Feliz 2012!


                           

OLHAR II

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Passei  uns dias de relógio de Dali, liquefiz-me. Passei uns dias eternamente indo, sem ter, sem como e principalmente sem o porquê. E conheci uma solidão acompanhada e desatenta.
Havia o tempo, o espaço, mas de nada eram e a tudo preenchiam. Havia a consciência de uma existência se reconhecendo, lentamente, mas enfim, conhecendo.
Eu media as distâncias, aprendendo a medir palavras, eu ouvia o tempo e as suas lições eram escritas na face mesmo. Mas bastaria um olhar mais atento para perceber que faltava um elemento. Bastaria um olhar de cuidado para compreender a essência. Bastaria um olhar, para tocar a vastidão da ausência.
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OLHAR

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Tenho uns planos guardados esperando, esperando... e um vestido de tecido fino, leve como não é um sonho esperando. Mas o vestido já não serve ao sonho e o sonho já nem cabe mais. É que eu quero as coisas mais bobas e possíveis do mundo.
Quem prestou atenção no passarinho abrigado ao meio dia no semáforo quebrado, observando uma nuvém de pásssaros sem asas em estranha sinfonia desafinada?
Aconteceu também de uma caricatura adorável  passar por mim em apuros de cinema mudo,  nessas cenas onde o invisível é tão maior que o visível, mas nem sempre conseguimos alcançar. 
Mas bastaria um olhar mais atento para perceber que certas coisas acontecem com a gente para que melhor possamos compreender o semelhante. Esses dias estou mais apta a entender  as pessoas.
Meu Deus, libertai-me de  buscar o que não é, para que possa me dedicar ao que é e será. Amém.
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NOTÍCIAS

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A tarde caminhava para a noite, e eu caminhava para a vida. Pacífica e calma era a tarde e em nada lembrava os rumores de guerra, a violência dos homens e a fome sobre a terra.
Mas havia a umidade em baixa e um cinza construído, de descuido constituído. E o cinza tingiu o horizonte, abraçou os prédios e pousou no que havia.
De cinza se vestiu o capim estralando securas, mas com a bravura ainda verde que requer a sobrevivência, como a flor insistindo em ser flor, contrariando as circunstâncias. Só a menina tinha a primavera em suas mãos e nem se deu conta.
Distraída, pisei a notícia que já não era nova e empoeirada virava história, e descobri abandonado um segredo alheio que guardei comigo.
Silenciosa me acompanhava a calçada, onde o rapaz conversava com as mãos e sorria com olhos de encanto. E foi sem causar incômodo, que testemunhei um abraço demorado, como quem se perde no tempo, como quem se encontra no outro.
E foi assim, em duas voltas, uma caminhada e um desejo antigo de alongar a existência e não perder nada, ainda mais de uma tarde, que apesar de cinza, cabia esperança.
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DROMEDÁRIO

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A atmosfera no trânsito é feita de combustão e pressa, e um ruído, como se tudo fosse urgência. É um intenso, um imenso mar de máquinas inquietas e rotações de imprudências. É um risco, um estalo, uma seta envenenada de descaso.
Hoje vi uma campanha estampada em um ônibus “ Motorista proteja o ciclista”.
No que vi, senti que era de uma grandeza e de uma beleza triste, porque ainda é preciso que se rogue por respeito a vida.
No retrovisor, um carro e outro carro e surge um dromedário volante no asfalto. Adiante, em frente a esteira onde passarela a vida, ergue-se rígida uma flor de aço, de uma candura fina e estática, ornando o dia e iluminando os passos da noite. E ainda, o assombro, um susto; o motoqueiro e seus malabarismos entre dois carros retorcidos.
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PREGUIÇA


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Hoje é domingo, não peço cachimbo de barro, nem jarro de ouro. Peço mais meia hora na cama. Quero aproveitar o temperamento do meu planalto, que hoje deu a soprar um vento seco, meio frio meio quente,  entrando matinal pela minha janela, como que um duelo entre o inverno e primavera ou coisa como se outono e verão não suportassem o tempo da espera. Coisas do planalto.
Então, vou aproveitar que por hoje tudo é domingo, pra largatear na cama por mais meia hora. Vou deixar estar cada minuto dos trinta que me dou e espreguiçar bem e demorado, como um bom domingo merece, e depois, depois uma prece.

Tomar café só mais tarde e mais tarde também os afazeres, porque apesar de ser domingo, a gente sempre tem. Mas por agora, me jogo inteira na cama, afundando em preguiça dominical, por mais meia hora. Amém.
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UM DIA

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Um dia, quando pensei que era o fim do mundo e o fim de tudo, acordei assustada com um diagnóstico como quem se apavorasse com um telejornal avisando da bomba atômica. Fiquei atônita e silenciosa. E não podia fazer alarde e a culpa era de ninguém. Não chorava pra não avaliar ainda mais a delicada imunidade.
E pensando que era o início do fim, percebi que havia acontecido o início de tudo e todos para mim, porque  quando as perdas são irreparáveis é que o valor que cada coisa tem se sobre sai. Foi a partir de então que o dia amanheceu ainda mais belo e desejável e a noite escura, fria ou quente, era a mais linda que havia. E já não irritava o trânsito externo e o metrô em seus trilhos de ferro e nem tão pouco as marteladas da civilização. E era como música as crianças em gritos de vida no parquinho do prédio.
Em dias em que tudo pareceu-me tão grave, a graça ocorreu com mais facilidade e a tolerância tornou-se um patrimônio valioso. Quando os dias futuros se mostraram assim, inatingíveis, caminhar foi uma forma de buscar alongar a existência e não desejei coisas e marcas ou sucesso, só e apenas uma oportunidade.
Um dia quando pensei que era o fim de tudo e esse tudo era o meu mundo, testemunhei como testemunhamos todos os dias o sol nascendo e alargando seus raios em abraços calorosos, o reinício da vida. Da minha vida.
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MEDIDA

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É quando me dou a certas percepções secundárias que deixo as coisas importantes em desordem verdadeira. Há tantas coisas que não são de todo importantes. Importante é o café posto à mesa, a lição de casa e a benção diária. Mas percebo também o amparo que significa, porque preciso do pão, da lição e da benção. No entanto, a porção que me dita também necessita do não importante e isso implica intenção, doação, entrega, do que hoje sou escassa.
Mas há de se ter um tempo e dentro do tempo um caminho. Afinal, não é bem assim a vida? Fazer caber dentro de uma medida uma imensidão que não se explica. Que nem o coração que dentro dos seus limites acomoda tanto amor que não se imagina.
Mas já agora vou ser bem prática, então é assim que fica: o importante vem primeiro e o menos importante, mas intimamente necessário, deixo por derradeiro... assim diz a sabedoria.
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INSTANTE

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O momento que se chama agora, é o mais importante da vida. É tão breve, mas posso tocá-lo, é tão comum que posso ignorá-lo, é tão precioso, mas acontece de desperdiçá-lo. Mas não deve ser assim. Esse momento, é especial, pois nele contamos nossa história, escrevemos nas linhas do tempo e memória.
Eis uma bela forma de viver a vida, celebrando cada instante. Não, não é o caso de viver alienado, é o caso de viver de verdade. Não se trata de viver sem planejamento ou de abandonar o passado, mas sim de saber dosar a existência e isso se aprende com algum esforço.
O agora, normalmente é tratado sem muitos cuidados e empurrado pela força de ansiedades futuras. É assim que perdemos oportunidades ímpares de ser e fazer aqueles que nos rodeiam mais felizes. É assim que deixamos passar aquela palavra necessária, o apoio que alguém esperava e o favor que outro alguém nem esperava.

O presente pode estar embrulhado com laços e fitas ou não, mas de todo é uma dádiva. Saibamos vivenciá-lo, saibamos percebê-lo com o zelo necessário, com um sorriso, um afago, um abraço camarada e um olhar inovador sobre uma rotina caduca.
Usufruir deste presente do presente é colher da plantação de presentes passados e lançar a semente para presentes futuros. Que se tornem referências os ensinamentos do agora, lições que nos farão melhores, mais criativos e pacientes.
Minha oração é que neste presente, eu não me ausente, eu não me perca em buscas e lembranças que me amarram ao passado, que eu não devaneie em ansiedades futuras, mas que eu sinta a beleza de cada momento, do mais simples e rotineiro ao mais intenso e desafiador. Que a oportunidade de ser e construir algo melhor, instante a instante, seja abraçada por todos nós, agora e sempre. Amém.

PERCEBI

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Agora que tenho em mim as marcas da urgência da vida, me apego ao ser e estar e reunir e valorizar. Agora o minuto não me escapa e aprendi a ser toda ouvidos.
É que por tantas vezes queremos corrigir defeitos próprios e alheios que excedemos na borracha e apagamos traços importantes de conexão nos contornos da vida, e daí a própria convivência. Quem não convive não toca. Ninguém quer ou pode estar sem ser. Se uma das buscas da vida é o ser aceito, eu aceito ser e deixar ser. Eu aceito amar simplesmente por amar.
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BLA BLA BLÁ IV

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Ai que tenho um defeito esquisito, por ser defeito já se explica o esquisito, mas assim deixo para enfatizar. Eu sei que todo mundo tem defeitos, a perfeição é uma busca. Poucos a alcançam em algum momento da vida. Acho que é aí que se fazem os gênios, os santos.
Sou apaixonada pelo que é bem feito, perfeito, admiradora eterna de todos que ao menos em uma área da vida o experimentaram. Não estou falando da perfeição como a de Deus. Essa, por certo não se alcança. Mas falo da perfeição de um caminho correto, de escolhas certas. Do belo da arte, da maravilha de uma música clássica, e da ternura de uma bela canção de amor. A salvação da descoberta de uma vacina, do milagre cotidiano de um sorriso amigo. Amo a perfeição das metas alcançadas. Das boas metas, objetivos cumpridos. Por exemplo, as formaturas, isso para mim é o evento de uma vida, e não me lembro de ter participado de alguma sem que estivesse em lágrimas. Vejo nestes momentos, o resultado de um sonho, que não é como nos contos de fadas, mas sim alcançado com suor e lágrimas e cansaço e dedicação. É o encerramento de um ciclo maravilhoso da vida e acima de tudo, a largada para um futuro a ser construído e ainda a vontade de fazer diferença no mundo.
Mas voltando ao ponto de início, meu defeito que aqui compartilho e caso alguém sofra de tal mal, saiba que tem um semelhante sobre a face da terra.
Repare que investigando esse mal, em algum momento acreditei eu tratar-se de algum complexo, pois já de início preciso ficar atenta para que não se manifeste. Mas em outras avaliações, diagnostiquei como um lapso de contexto, mas não encontrei estudos que fundamentassem minhas suspeitas. Pensei até mesmo em barreiras psicossomáticas de relacionamentos... ham? quê ???. Enfim, fui percebendo aos poucos, que trata-se mesmo é de excesso de sinceridade e quando vejo o estrago já foi feito. Mas desde já adianto, nada premeditado, é espontaneidade demais e acrescento, à medida que avança a idade, o problema se agrava. Vejam que esses dias, falei para um poeta que eu não entendo nada de poesia. Acho que foi só insegurança. Claro que ele nunca mais puxou assunto comigo. Contei pra uma amiga um barraco que aprontei na rua, aí ela tomou doriu. Falei pra um rapaz que ele tava com caca no nariz. Ele saiu correndo e nunca mais voltou, quer dizer, nunca mais voltou ao normal. Claro que aqui digo apenas as coisas bobas, porque as sérias... Sobre as coisas sérias ainda não escrevo. Mas creiam-me sou do bem, só às vezes é que não me saiu tão bem assim.
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INVERNO II

É vestida de outono que recebo mais um inverno, e há previsões de madrugadas geladas. Não sou do frio, o inverno me intimida, embora a pouco tempo percebo que estou mais ativa nesse período. Não como quem se sente melhor com as baixas temperaturas. Acho que é porque sei do desafio e ajo assim, enfrentado limites de nariz vermelho.
Quando criança eu tinha umas crises de frio, inexplicáveis. Sentia tanto frio, sem que necessariamente estivesse tão frio assim,  que às vezes era preciso vários cobertores para eu me sentir aquecida. Em certas ocasiões, só passava com um cobertor todo feito de abraço. Talvez porque eu era tão magrinha que a pouca gordura que havia, não fosse suficiente para a manutenção da temperatura corporal, ou quem sabe, apenas artimanha infantil, inconsciente, em busca de carinho. A mente e seus rodeios e o corpo buscando formas possíveis de tradução...
Há muito charme no inverno e um cheiro de naftalina no ar. Mas há um perigo a espreita. E não é de gripes e resfriados, embora sejam iminentes. É que a minha fome se agrava no inverno e só passa quando passa a estação.  Então vou subtraindo os excessos com algum exercício. Mas não deixo de exercer meu direito a um bom chocolate quente quando bate a vontade.
Porém, não é apenas de frio e fome que é feito o meu inverno. Sinto algo mais, e sinto muito, que a nossa humanidade não seja suficiente para agasalhar a todos que a todo esse frio sentem. Espero que nosso inverno seja repleto de atitudes calorosas.
O inverno é assim, o que se espera, uma luta dentro de mim e fora uma vitória diária, sair da cama quente e viver cada instante com esperanças de primavera.
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REFÚGIO

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Fiz para mim caminhos, em um deserto aportei. Por fora eu flores e rios, menti. Em meu interior o ermo silencioso se alastrando em devastação.
E quando o fim era o meu destino, eu vi, fez-se o início, pois Teu rio de águas vivas inundou a amplidão dos meus caminhos tortuosos a aridez de toda transgressão.
Fez-se árvore, frutos e sombra, ao entrar no teu descanso, floresceu em mim jardins. A abundância dos Teus rios tragou o ermo, curou-me enfermo e trouxe habitação, pois da Tua palavra emana a promessa, a restauração e a vida plena.

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SOBRE ANIVERSÁRIOS

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É que dá uma vontade de festejar a vida, de comer bolo com refrigerante sem se importar com as calorias, de receber flores do campo, colhidas na floricultura do bairro mesmo, de perceber aquela movimentação de última hora de alguém que ainda pensa em fazer surpresa de última hora, faz parte e é um barato... é dia de cantar parabéns pra você de pijama ainda na cama, rodeado por quem a gente ama.
É que só dá pra agradecer pelas oportunidades, pela família, pelos amigos.
É dia de orar baixinho, só você e Deus e um coração repleto de gratidão e alegria.
É dia, é dia, é dia!!! é hora! é hora ! é hora !!!! HÁ TIM BUM!!!!
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EBULIÇÃO

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Como posso explicar o que sinto? É mais ou menos isto: um misto de amor, bravura e ternura, que se amplia, expande, alarga. Irradia em escala materna. Uma energia poderosa, por vezes contagiosa.o

BLA BLÁ BLÁ III

Escrevo vez ou outra, mas gostaria de escrever sempre, não por literatura, mas como quem ainda nutre curiosidade sobre a vida. Como quem espia o mundo e rabisca impressões.
Procuro uma palavra que corresponda a um sentimento, mas às vezes elas me faltam, também pudera... eu as compreendo. Sei que falhei com elas. Talvez por isso essa ausência, esse distanciamento, afinal é amando que se é amado.
Mas queridas, não pensem assim de mim, hoje eu sei o quanto vos amo, na verdade sempre soube, tanto, que tantas vezes adormeci abraçada em comoção a livros de pessoas que tão bem souberam colocá-las e declaro aqui o meu amor por vós. Se vos faltei foi porque me perdi entre os números com suas fórmulas e sua aplicada lógica. Mas isso me foi necessário, até ao ponto de exigir coragem.
É fogo essa vida que é toda feita coragem. Coragem e fé. Porque sem a fé necessária, é difícil dar um passo após o outro. E passo por esse mundo de meu Deus, com essa inquietação que não passa, de tentar compreender as coisas intangíveis do universo que somos nós.
São nessas tentativas que ainda me deparo com espanto com uma certa dificuldade de natureza pessoal, não muito grave, mas existente, insistente. Olha só que tentando compreender o amplo, o infinito, caio dentro de mim mesmo, o grão, a partícula. Então como se explica, fui tão alto que esmiucei o mistério do qual sou parte? Ou, nem saí do lugar e só alcancei a mim mesma? E pouco ou nada desvendei, eu heim ...

Há... mas vá lá querer compreender o homem, vai lá querer compreender a alma humana, dessa espécie que pode ora transbordar e ora mostrar-se um imenso deserto, pode parecer cheio de tanto e tanto ser oco dentro e pode ainda estar solitário em meio a multidão.
Há... vai lá querer ir tão fundo em si que até dá dó. Tenha dó Simone!
Então me ergo, e percebo que sinto, logo existo, e isso faz parte do ato de viver. O que não pode ser é sucumbir e se deixar vencer. Porque viver é isso, é se dar conta de tantas limitações e imperfeições, mas não se deixar abater, é gerar soluções, buscar saídas. É reconhecer as fraquezas e ainda assim tornar-se mais forte. É viver a realidade, mas nunca abandonar seus sonhos, jamais
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o

Uma solidão
Que não é feita de tristeza
Uma imensidão
Onde não cabe a estranheza
Apenas eu
comigo mesma

a
preciando
pequenas delicadezas
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o


EXPEDIÇÃO II

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Tem umas coisas que agente aprende e não esquece mais. Tem certas coisas que adentram nosso ser, permeiam nossa história e grudam em nós e nós nos apegamos a elas. E falo de coisas simples, coisas singelas que passam despercebidas na grandeza de tantos outros fatos na nossa vida, da nossa trajetória.
E vejam só que um dia, mais um desses dias perdidos no passado, agasalhados nos cômodos da memória, aprendi algo que achei simplesmente bonitinho; mas bonitinho assim, de perfeito, de tocante, de encantador. Só não me lembro quem me entregou essa preciosidade, mas agradeço imensamente pelo grandioso ensino que guardo até hoje. Trata-se de uma expressão, mais conhecida nas cidades do interior, acredito eu. É o "caminho do lá vai um", ah, eu sei que até soa bobo, mas é que eu sou assim mesmo, boba, bobona e tem umas coisas bobas que me comovem.
Foi realmente, não minto, uma grande descoberta pra mim saber que aquela estradinha desenhada no mato de tanto a gente andar é o caminho do lá vai um.
Quando criança, mesmo andando em bando no cerrado, colhendo as frutinhas do mato, quando aparecia a estradinha, não tinha jeito, era fila indiana mesmo, e lá vai um!
E lá vai mais um, atrás das frutinhas do mato. À medida que íamos passeando, brincando, explorando a imensidão da nossa infância, íamos também experimentando os sabores que a natureza nos disponibilizava. E essas frutinhas, são achados maravilhosos. Eram como delícias disponíveis em um pomar, sem cerca, sem limites e sem dono. Era de todos nós.
Sei que muitos não desfrutaram desses prazeres, mas eu e meus irmãos sim, claro que sob a consultoria da minha mãe, que entendia muito das plantas do cerrado.
Será que alguém aí sabe o que é o sangue de cristo? Dessa provei muitas vezes. E a bananinha? Azeda!!! E o talo do coquinho do mato, delícia! De algumas flores sugamos quase que mel! Ah, era tudo uma grande aventura.
E tem algo ainda muito interessante, mas não é de comer, é de ver e sentir. É a "Maria Fecha a Porta", uma plantinha sensitiva, conhecida também como planta tímida. Gente, mostrei pra Lulu uma que nasceu aqui perto de casa, ela ficou muito emocionada. E como, como não ficar? Não tem como não se emocionar, vendo a plantinha tão educada e tímida fechando suas folhas após um toque, como mãos espalmadas em prece, ou uma janela de dois lados... aquelas que deixam as casas com cara de poema.
Tem umas coisas simples que agente não esquece. São essas coisas, que eu não quero esquecer, jamais.
Agora, todos os dias a caminho da escola, a Lulu passa pra ver a Maria fecha a porta.o
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SOBRE(VIVÊNCIA)

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O
O cinza da manhã fria
atravessa a retina

desafia
o
e ao contrário do que se imagina
tinge-me por dentro
de ensolarada
alegria

O
O


MENINICE III

O
entrego-lhe uma pequenina pedra colorida em tons de verde, ela olha admirada e diz que é linda, tão linda quanto suas pedrinhas marrons, e agradece. Então, lembro-me que a menina era assim mesmo, encontrava beleza em tudo a sua volta. Era da pureza do seu olhar que fluia a beleza da vida, das coisas raras, das coisas simples.
Mas o que é que a vida vai fazendo com a gente? Mas o que é que eu deixei a vida fazer com a menina? Em que esquina eu traí essa percepção do mundo que não eleva nem diminui, mas iguala no melhor de cada um. Que não exclui, antes, ajunta naturalmente e é feliz.
Eu me recompondo, alinhando o pensamento, amparando uma lágrima a tempo da queda, pego na mão da menina. Ela me convida pra conhecer sua cidade de pedras. Passo pelas ruas cuidadosamente planejadas, há uma praça no centro da cidade e no meio da praça, há um jardim. Ah, o jardim de flores e folhas colhidas dos canteiros da mamãe. E não me lembro de broncas por retirá-las. Eu não sei se a aborrecia, mas vejo a menina orgulhosa do perfume exalando do seu jardim.Enquanto isso, meu pai passa urgente à margem do seu pequenino mundo. Ela tenta lhe mostrar seu trabalho, mas ele somente acena e passa grave e mais urgente. Eu sei que depois, logo depois, ela vai saber da sua pressa e desatenção e vai entender. Ela vai saber entendê-lo.Ainda segurando em sua mão pequenina seguimos. Viramos em uma esquina, ela olha pra mim e sorri. Mas eu reconheço este caminho, eu sei o seu percurso e o seu fim. Vejo uma escolha difícil, uma experiência ruim. Então me antecipo e impeço que ela continue, puxando-a pela mão a faço regressar. Voltamos ao jardim da praça.
Ela ainda pensativa me convida pra sentar ao chão e  serve-me um chá de faz- de-contas com biscoitos fresquinhos de terra vermelha. E o faz sem se dar conta de tamanha doçura, da tamanha riqueza que extraída da pobreza em que vivia. A menina era mesmo assim. Ali, olhando em seus olhos  lembro-me claramente que algumas experiências ruins foram como vacinas e preveniram dores maiores, angústias sem fim.
Se eu pudesse voltar no tempo, o que faria diferente? Não sei, não sei. E o diferente aonde levaria a menina? Não sei. Então, eu beijo a sua face, lhe faço um carinho e parto. E deixo que a menina siga o nosso caminho.
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MENINICE II

Estou pequenina em mim mesma cultivando um egoísmo íntimo e certamente indivisível. Só compartilho sua existência como quem obedece com certo emburramento infantil, porém com respeito a um mais velho, para fins de registro diário. Para que não se perca na diversidade e acúmulo dos fatos.
Mas sua natureza não é malévola. É até benéfico, no sentido de que não há gravidade neste sentimento. Trata-se de bobas questões pessoais incompartilháveis, porém apaixonantes. Meus segredos comigo mesma, com juramento de mindinho e demais convenções dos tratados e códigos dos segredos, tão bem conhecidos pelas crianças. E por aí, muito já denuncio.
O que ainda posso dizer sem muito expor, é que todo mundo alimenta dentro de si uma criança entre seus cinco e nove anos de idade, uma princesa ou um super herói. Alimentamos essa criança necessária que nos habita com lembranças de afagos, histórias, coleções de figurinhas, papel de carta, miniaturas, bonecas rabiscadas e tantos outros objetos portadores de porções da nossa infância, da nossa essência. Significados lúdicos eternos que nos fazem regressar e ver-nos em cenas tão reais da nossa meninice, como se fosse o agora.
Quando volto a um certo dia da minha infância e me vejo ali no quintal enorme, o enorme da memória, cercado por pés de Adália, eu construindo uma cidade com pedrinhas enfileiradas. Quero chegar perto e ajudar a menina. Quero buscar as pedrinhas que estão longe, as falsas gemas, os falsos diamantes que ela colecionava na gaveta da estante. Quero encontrar uma que seja rara e trazer para menina que brincava de construir em uma tarde cinza, sozinha, enquanto seus pais brigavam.
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DOS CONSELHOS QUE NINGUÉM PEDIU - I

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Gente, o sonho não acabou, as coisas é que mudaram de lugar. Por isso o estranhamento, o não reconhecimento. Na convivência a gente se esbarra, perde a fala, faz e desfaz a mala. Se fadiga pra conquistar, alcançando e traçando novos planos. Aí vai ficando mecânico, seco, sem brilho e tudo a sua volta, cinza. Mas não foi assim o combinado pra toda uma vida.
E sabe de uma coisa séria e linda? O tempo passa, mas o coração não desvanece, continua sempre esperando flores na janela, café da manhã com promessas e cumplicidades ao anoitecer.
Então, faço como quem aconselha o que deveras anseia. Falo como quem defende que conselhos podem ser bons, mesmo que nada custem. Mas se de todo, julgá-los fúteis, altamente inúteis, não despreze totalmente. Creia-me, há futilidades que se provam essencialmente úteis.
Primeiro, dá folga pra TV, organiza seu tempo ao computador. O tempo é um recurso escasso, por isso vale tanto o tempo ao seu amor dedicado. Procure assistir através dos olhos um do outro o filme mais importante, o filme das suas vidas, em plena fase de produção. E você é o roteirista, produtor, diretor e principalmente o ator. O sucesso está em suas mãos. Lembra quando olhando no olhar, já se entendia tudo? E o tudo cabia no instante desse olhar, lembra?
Faça um carinho, mesmo que apressado, quando passar um pelo outro nos trâmites da casa. Um cochicho ao pé do ouvido nos encontros de corredor. Beijos sem nexo, inesperados, embalados de surpresa, lembra tanto namoro, e namoro rima tanto com renovo!

Abrace muito, mesmo que sem motivo. Mas há sempre um bom motivo para um abraço afetivo. E garanto instigados os sentidos.
O humor também derruba muros, abre brechas nas camadas impermeabilizadas dos sentimentos. Então vai, conta aquela piada engraçada. Mesmo desbotada, desgastada. Conta de outro jeito, inventa outros trejeitos, só de pretexto pra compartilhar. Rir é tão bom, às vezes até dos próprios defeitos. E cura, se feito com ternura.
Ah! Quando acontecer uma discursão, que é humano, e for inevitável, comece assim: Meu amor...
Que tal ainda, trabalhar duro por um tempo sem fazer nada, caminhar de mãos dadas, transpor caos e dilemas: da fadiga, do orçamento, da desordem das crianças, dos conflitos nacionais, internacionais, enfim qualquer caos estabelecido. Dê a convivência maior sentido, pra fazer a vida valer a pena valorizando as coisas simples, as coisas pequenas. Valorizando sempre a quem se ama. E não se esqueça de dizer isso! É fundamental. Se já perdeu o jeito, treina! Lembra quando de tanta falta de jeito e ansiedade, ensaiava-se primeiro o que falar antes do telefonema, lembra?


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DAS FIGURAS ESCONDIDAS II

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É o seguinte, dependurada na noite, havia a Lua Cheia que a Nuvem Negra invejosa da sua beleza, procurava ocultar. Então, essa briga da vaidade feminina, fazia ter um aspecto de noite de Lobisomem.
Mas que besteira estou dizendo!? Lobisomem não existe! E eu não tenho medo de Lobisomem não, só da Alma dos Três Cabelinhos!  Meu Deus, quem tem medo da Alma dos Três Cabelinhos!!? Só eu mesma. E a culpa é toda da Sandra.
Bom, depois da breve constatação sobre o estado da noite, fui tomar meu banho. Ah, meu banho pré sono, é bem depois disso que eu desmaio na cama.
Mas... ai, ai, ai, lá vem as minhas figuras no box do banheiro...Vou ter que decifrar, ou nem consigo dormir.
Mas, o que é que estou vendo? Pois bem, não! não! Pois mal, é um fantasma e dos grandes!! Mas e agora!? Nem posso correr! Engulo o susto a seco, porém molhada. Calma Simone! Calma! Não é a Alma dos Três Cabelinhos não! Ufa! Pelo menos isso.
Coragem, vou descrever: Havia um fantasma enorme, todo muito branco plasmático, com apenas um olho negro horrendo no meio da face e em uma das mãos segurava uma corda de forma ameaçadora. E reparo que lá embaixo, na segunda porta do box, há a cabeça de um animal. Seria um dragão? Sim, é um fantasma com seu mascote dragão fantasmagórico muito irado!
E eu tremendo, não, não de medo, de frio.
Aí né, só que o olho do fantasma era muito esquisito e a medida que o vapor do chuveiro foi baixando, o tal olho negro foi aumentando, aumentando de tal forma que agora estou vendo mais dois olhos pequenos! Continuo tremendo, não, não de frio, de medo mesmo!
Mas de repente, ouvi um som cortando a noite, epa! Parece um trote:
poco-toc, poco-toc, poco-toc!!
Mas dragão tem casco? E trota?
Que nada. Agora decifrei tudo de uma vez: Era só um menininho brincando à beça, fantasiado de improviso com um lençol branco que o cobria dos pés a cabeça, com um buraco cortado na altura dos olhos para poder enxergar - Bem pensado garoto! E o dragão, não era nada disso. Era só o seu cavalinho com cabeça de plástico e corpo de cabo de vassoura. Quanto a
corda em sua mão, não tinha nada de ameaçadora, era só um barbante para cabrestro. E brincavam com doçura.
Ufa que alívio. Agora já posso escovar os dentes.
Enquanto isso, lá nas alturas, a Lua puxou a Nuvem encrenqueira pelos cabelos, tirou-a da frente e se exibiu por inteiro! Bahh! Briga de meninas!!


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BLÁ BLÁ BLÁ II

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Aprendi a perceber a vida pulsante nos quatro elementos e as tantas possíveis regências. O espetáculo e a discrição. Compreendi a fusão em si próprio, no amor e aonde mais a vida se alastre e renove insistente. Mas é tão alta essa literatura, e tem porte. Porte de Nobel.
No esforço de alcançar eu até fico na ponta dos pés e ainda estiro coluna, braços, dedos e pensamentos, como faz o meu filho caçula tentando a custos alcançar a maçaneta da porta. E ele sabe o que o espera, um corredor livre e repleto de oportunidades, é difícil, mas a visão o anima. Porém, é tão alto esse voo, que eu não posso, não posso.
Ai! que também há a fundura onde me perco, é tão profundo que não volto mais. Mas aprendi algo possível sobre os impossíveis, seja no voo ou nos abismos: Aprendi que se pode ser, e ser livre, assim como sinto, assim como penso, e isso me libertou. E me prendeu. Até que venha o meu corredor de oportunidades.

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BLÁ BLÁ BLÁ

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Leio pouco, mas do pouco que leio vivo. Sobrevivo. Por isso há sempre uma vontade insatisfeita lambendo os olhos diante de uma livraria.
Mesmo dando só pro gasto, me é tão intenso, que sofro. Sofri tanto esses dias, que cheguei ao padecimento. Eu chorei de tristeza. Mas antes, já havia chorado de tanto rir. E quando me lembro, o quanto ri e desejei o final feliz que não veio, não aceito. Sofro, embora compreenda. Sofro como que não entenda. Compartilhei com um conhecido, ele disse que eu entregasse tudo nas mãos de Deus!?
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DAS ANDANÇAS I

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Adolescer em Anápolis... meu Deus que foi com alegria e dor. Que recepção me fez a cidade! Era toda o cheiro, e que cheiro do shampoo colorama de pêssego que havia lá no sobrado da Zenilda. É o perfume que ficou pra vida inteira.
Mas houve a estranheza como quem estranha outro país, outra linguagem. Um estranhamento de cara, cabelos e comportamento das meninas da vila, que também era Formosa, e o choque do meu pequeno mundo P Norte.
Quando cheguei, notei que já se usava maquiagem, e eu que nem parâmetro tinha, sabia que era de forma fina e delicada, mas agredia.
Me agredia o gloss, o baton, as unhas pintadas, os cabelos brilhos, os cachos e os alisados natural, que ninguém diria.
E eu, um espantalho, todo cabelo sabonete e neutrox e kolene quando cabia. E era todo o meu rosto a estampa da molecagem, queimada do sol das tardes em jogos de queimada nas ruas de Brasília. Acho que ainda nem me importava com o shampoo Colorama de pêssego que eu não tinha.
E faço agora a mesma cara de boba-alegre com a qual ando carregando por entre semáforos e buzinas estas lembranças. Mas o engarrafamento e as filas são apenas pretextos do tempo, pois que permitem ao pensamento resgatar a menina.

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OFENSA

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Será que, quando me digo enfadada e suspiro cumprido dizendo que estou cansada, ofendo o lavrador, o gari, a empregada? O reciclador, o pedreiro e tantos outros trabalhadores de duras jornadas? Se ofendo, não é por querer. A gente dá muita volta em torno do próprio umbigo. E em nada justifica a geografia acidentada.
Quando digo que tenho fome, sem o menor pudor da palavra, como se fosse a fome primeira,
fome verdadeira, sei que ofendo ainda mais o que granjeia das sobras seu próprio sustento. O necessitado quando pede, suplica. E não é do jeito que eu imploro suplicante ao meu hidratante que dure mais uma aplicação, e mais uma, até que eu possa repor a fórmula. A banalidade não se explica.
Talvez esse meu cansaço, seja mesmo só o corpo pedindo para es-pre-gui-çar... Assim como quando o corpo tem sede e a gente pensa que é fome. É que o cérebro, faz também as suas confusões. Então, devo comer devagar, devagar, pra não comer mais que a necessidade. Aí, como menos, menos... menos que a vontade.o
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