VIAS III

O
O

Poeminhas amassados pelo chão
sinalizam um caminho sem volta

Em cada pedaço de mim
um sentido se aguça e revolta

Reviro
tento
margeando inícios

Mas não me arrependo
vou seguindo ao sabor do vento
em silenciosa busca

Onde me reinvento

O
O

VIAS II

O
O
Persigo um verso
Pra que ele me delate

Persigo um verso
Como ouro de alto quilate

Persigo um verso
Pra que ele me encontre
Esse verso que vive aqui dentro
Brincando de esconde-esconde
O
O

ABRIGO

O

Havia algo de tão especial
e banal
naquele vão de saudades
Um veio de lembranças jorrando
memória à dentro
resgatando sonhos
estancando perdas
Um apelo de sensação libertária
ruir de escudos
papelão e aço
um abandono seguro
onde me refaço

Então vi

Fui abrigo
Ombros e passos.
O

DESENCANTO

O
Houve um tempo
Em que tua voz era canto
Tua presença encanto
E teu cheiro
Lembrança de coisas boas

Mas ao passar dos tempos
Fez tua voz silêncio
Tua presença tristeza
E aos sentidos sofrimento

Hoje,
Faz-se presente a agonia
Em sentimentos ignorados
Destinou-se ao passado
Amor prazer e alegria
O

EXPEDIÇÃO

o
o
Um pequeno graveto seco
Estalou sob meus pés cansados
Um grilo entoou uma canção antiga
Permeou-me intenso o passado

Quando as noites eram brincadeiras de roda
E os dias incansáveis expedições ao quintal
Cantinhos misteriosos
Imensidão inexplorada
Com sua fauna minúscula a ser desvendada

Centopéias, cem perninhas sem tropeços
libélulas acrobatas, besouros encouraçados
joaninhas ,caracóis,
E o louva-deus em seu terno camuflado

Das cigarras vinha o fundo musical
Do meu vasto mundo lúdico
Colorido pelas roupas estendidas no varal

Quando de mim dei conta
Continuei minha caminhada,
Mas já não tinha
Os mesmos passos cansados

AMADO

o
o
O coro harmonioso dos teus passos
anuncia tua magnífica aparição
um espetáculo cotidiano desejado

Como um sol adentras
a aquecer a casa úmida
o
então me ergues

Pois curvada de ausência te esperava
o
o

AMIZADE

O
O
Hoje vi umas flores murchas penduradas na sacada de um prédio. Pareceu-me um suicídio em andamento. Corri pra acudir. Mas elas não pularam. Ficaram ali, suspensas, com um olhar tão seco, que o choro era pra dentro. Eu sofri por elas, sem saber o motivo. Enquanto eu gritava silêncios por socorro, vi algo cortante. Em quase todas as sacadas haviam essas plantinhas dependuradas, caladas. Só aí me dei conta. Me vi uma delas. Essas flores desidratadas, abandonadas, são nossas amizades murchando. Amizade é assim, como a muito se diz. Uma plantinha que nós somos e uma plantinha que cultivamos. É preciso apesar da correria do dia a dia, apreciar e cuidar com alegria.
Esse Corre-Corre é apenas um jardineiro preguiçoso que fica desaconselhando o dia todo:
- Substitua essas flores de canteiro, pelas de plástico, é muito mais prático!
Ah! Jardineiro insensível! Não quer ter o trabalho do zelo. Não quer adubar com palavras carinho, afagar tirando os matinhos, regar com ouvidos atentos e se necessário apoiar com a varetinha do ombro amigo na hora da ventania.
Ah correria árida preguiçosa! Deixa vai! Deixa eu cuidar da minha plantinha! E não reclame se as flores de plástico não lhe abraçam com cheirinhos.

E você... vai lá, vai. As plantinhas da sacada, ali penduradas podem seus amigos...
O
O

O TEMPO

O
O

O tempo é esse menininho sapeca desenhando garatuja na parede do meu rosto.


............................ - Peraí menino! que eu vou chamar o seu Pitangui, viu!!

O
O

CAMINHOS

o
o
........Quem ama recria
Encontra na alma vias
...........Caminhos leves
..........Esquinas vazias
O
.......................e segue
o
o

ENTRELINHAS II

O
O
é o meu melhor amigo. Sabe... ele tem nesse jeito de furacão, muitas brisas acumuladas. E na sua voz de trovão, as saudades do sereno retornando a terra. Sentiu aquele cheiro bom? É o seu hálito de primavera. Ah! e quando ele me disse não, foi pra eu me lembrar que amar é cuidar... e cuidar é coisa muito séria.
O
O

ESSÊNCIA

O
O

No espelho embaçado de paixão
Tudo era pleno e perfeito
quando o calor mais intenso abrandou
escorreu líquida a urgência
restou todo nitidez o amor
refletindo maior essência
ainda que expostos rugas e defeitos
O
O

ENTRELINHAS

o
o
E sempre que ele saía retornava me trazendo um sonho de panificadora. Eu reclamava, dizia que tava engordando ou que o sonho era dormido. Ele ficava triste e dizia que não sabia comprar outra coisa. Até que entendi. Sonho não engorda. O sonho nutre. E tinha mesmo que ser dormido, ora essas! Sonhar acordado não tem graça. E aquele gesto constante repetia silênciosamente, eu te amo.
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VIAS

O
O
Do poeta uma estranhesa
brinda a poesia com cacos sobre a mesa
um tanto teimosia
outro tanto de tristeza
O

ALÉM

o
o
Quando eu enxergar a ternura da pedra
e a luz da sombra que me cobre
Quando aprender a tratar terra árida
Pode ser que a palavra que me falta brote
o
o
o

MIMOS

o
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Hoje fiz um carinho no meu calcanhar. Eu que o trato de forma tão funcional. A ele ligo chão estabilidade aspereza. Não costumo tocá-lo. O julgo um tanto quanto impuro. Contaminado. Mas hoje em um dia nublado, ouvindo suaves acordes teclados, deitei-me em posição fetal, braços entre pernas. Entrega. Minhas mãos tácteis sensíveis, percebendo a carência, tocaram meu calcanhar esquecido como um velho amigo. E ele dissipava desejos contidos de afagos e mimos. Quando dei por mim, o tocava sem preconceitos, deslizava palma e dedos em ternuras e doação. E percebi quando ele empolgado e lisonjeiro exclamou ao nobre cérebro: Eita! Como um cafuné é bom, heim companheiro!
O
O

SOBRE A NOITE

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A noite com seu colo imenso
me abraça materna
a preparar-me para o amanhã
Canta-me antigos silêncios
me faz o afago de um sonho
e sempre deixa a luz dos raios de sol
acesa ao se ausentar
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EQUILÍBRIO

O
Tudo que domina
Mina o centro
Desloca o eixo
E lança a esmo
“Mas não se prende o vento
entre os dedos”
Dos meus abismos me ergo
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O
O

BOM DIA PAPAI(A)

o
o
Sentada à mesa da refeição matinal, grata, retiro com delicadeza e destreza as sementes pequeninas, negras, resguardadas na liquidez embrionária madura, para não lhe ferir a nobre polpa, para que nada se perca do sabor e maciez do meu mamão papaia.
Alaranjada fruta no tom saúde, saúda o meu dia, folha em branco disponível. Na verdade conto com ela com muita fibra, espero que anti oxide naturalmente minha história e ajude na faxina das sobras. Em seu teor adocicado, apetência e suculência me convidam. Vou o extraindo. Acrescentando-me. Absorta o absorvo, em colheradas sobremesa.
Iguaria acessível da multiforme natureza, que com generosidade me serve e sacia na minha manhã vazia, o paladar da boca prateada, salivada e presenteada com uma porção de bênção em forma de flor e fruta. Por um momento, apenas o saboreio... enterneço e esqueço, da vida com sua lida bruta e novamente agradeço pelo dia, pela vida, pela alegria, pelo alimento e principalmente, pelo meu mamão papaia saboroso, já sem caroços.
o
o

VISITA INDISCRETA

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Tem hora que não tem jeito, você não ta pra visitas. Hoje aconteceu comigo. Mas fui bem ligeira, mandei embora imediatamente. Usei uma daquelas receitinhas tradicionais para estas ocasiões, umas desculpas esfarrapadas, do tipo tudo bem, já entendi, pode ir embora agora. Porém, esta era daquelas abelhudas, de conduta aguda! Mas tem destes casos né, intrometida, folgada, vai chegando sem ser convidada e vai logo se acomodando, se instalando e revirando com seu interior. Então fui categórica, curta e grossa: Coloque-se daqui pra fora!!! Falei assim mesmo viu! Com a cara mais feia que aquela dorzinha indiscreta tava me obrigando a fazer....
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RELÍQUIAS

o
O
Peguei um pedacinho do sol, coloquei na caixinha das minhas coisas especiais. Pra quando o dia ficar nublado e trouxer aquele medo úmido, um cheiro de armário, eu te presentear com essa porção de sol que colhi. Só pra ver teu rosto iluminado e aquecer teu coração em segredo. Aí vou te mostrar...na minha caixa tem também aquele sorriso largo que me entregou quando te conheci, aquele verso de improviso, o agradável tom dos teus risos... Guardei as vezes em que teu ombro foi meu abrigo, o gosto dos seus cuidados, o teu zelo. Apurei o perfume dos teus ideais, o teu cheiro. Pétalas brancas com as tuas verdades aspergi. Colhi com leveza, o encantamento e a cor daquele dia inefável, em que passamos a coexistir.
o
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RETORNO

O
o
Hoje um lençol cinza forrou o céu de Brasília. Já não era sem tempo. Enfrentamos à pouco os dias mais quentes dos últimos quarenta e oito anos. Sem praia faltou ar condicionado pra refrescar o cerrado. Até as águas foram se refrescar nas nuvens. Agora o céu tá tumultuado. Vai despejar essas águas fugitivas no Lago.
o
o

BREVIDADE

o
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Vou me enveredar...........................
na brevidade do agora...........................
vou transitar eternidades...........................
que habitam os gestos mais simples...........................

experiência fugaz é a existência..........................
urge amor sem conta-gotas..........................

um ouvido atento..........................
é torneira jorrando..........................
que o árido coração sorve ávido..........................
brota a alma e dilata poros em flor..........................
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COMPOSTO

o
O
Porções de mim
Mármore
Marfim
Outras
Apelo
Calma contemplativa
Dinamitar de espelhos
o
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VERTENTE

o
O
Do teu...............
abraço eu faço...............
A promessa de uma vida...............
Em teu olhar eu traço...............
O começo e a despedida...............

Em fim o cansaço...............
A ti me enlaço...............
Incontida e sem razão...............
Nua e frágil confesso...............
Exponho minhas fraquezas...............
Despida a alma e a inocência...............
Em minha rota de colisão...............

Por te amar eu me encontro...............
Por te querer eu me perco...............
Por te esperar permaneço...............
Entre sonho e pesadelo...............
Em eterno recomeço...............
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PLANTANDO VERSOS (meu ócio criativo)

o
Planto hoje um verso
Rego o destino
Crendo no futuro
Preencho abismos

Germino no seco
Converto o ócio
Em instrumentos
Versos e questionamentos
Que vão além das teias
Nas correntes climáticas da alma
errática
No mínimo ao vento lançados
Reciclam-se
Enigmáticos
o

VAZIO

0 o
o

então será que nesse vazio solene
o silêncio se agigante denso
e esparrame nas páginas em branco
gravando seu eco

solidão
o
o

IMUNIDADE

o
O
Pra trilhar com coragem
Vou jogar fora as cascas
Vou ficar exposta
Pra ficar imune
dona de mim
e dos meus costumes
O
0

PRODUTO

Coloquei as horas ao meu serviço
E voltei eufórica a vida
Eu disse
Chega de artifícios
Chega de minerar minutos
Correr viadutos
Conter terremotos
Sorver maremotos
Em busca de recursos
Veredas em precipício
Onde me perdi

Visão turva
Não vi

Eu não vi
o mar o fim da tarde os amigos
não procurei o inimigo
assim como aprendi
deixei passar
o ócio a conversa fora
a vida
o agora
fui ação atividade
fui vício
fui arte
Fui nada
ooooooo Não fiz parte
desejei as horas ao meu serviço
mas o ritmo da solidão
me neutralizou.

ROTAS

o
o
Tenho mil possibilidades

E um vazio me acomete
desumano
calculista
Traçando rotas invisíveis
De planos vãos e findáveis
No rio turvo
da realidade
o
o

OBSERVATÓRIO

o
o
Ah! Esse vento impetuoso
Apressado aonde ele vai?
Poder que sustenta e aniquila
É ele que me põe medo
E o mesmo que me fascina

Ah! Esse mar em tormenta
Agitado aonde ele vai?
Dono de canções e de sinas
É ele que me põe medo
E o mesmo que me fascina

Ah! O homem, o homem...
Apressado, aonde ele vai?
o
o

TERAPIA

o
o
Minha causa é nobre
Por isso não me dobro
Os méritos
Próprios
Por isso não me troco

"Então não tema
Esse é o meu lema"
Felicidade
não tem contra indicação
Sorrir é seguro
E faz ruir muros
o
o

VERSOS BÁRBAROS

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..0...










A querida poeta Adriana Costa, dedicou-me este selo em seu
blog Versos Bárbaros, fiquei muito honrada e aqui faço
notório meus agradecimentos. Agora, gostaria também de
indicar blogs que amo de paixão:

1. Fernando Rozano - http://fernandorozano.blogspot.com/
2. Cosmunicando - http://cosmunicando.blogspot.com/
3. E La Nave Va - http://elanavev.blogspot.com/
4. Memento Mori - http://www.mementomori.com.br/
5. Casa de Paragens - http://casadeparagens.blogspot.com/
o
o

VIDA

o
o
Na base das convicções
uma ousadia
Crer que a cada dia
o novo viria
Com o ímpeto dos ventos
e uma porção de grandeza
para dividir
Como o pão sobre a mesa
colhidos dos velhos dias
Bocados de sabedoria
e gentileza.
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MAIS QUE IDADE

o
0
Enquanto o medo
Algema a alma
em ferrolhos de nervos
Grilhões do acaso
Cativeiros do passado
Em destemida fragilidade
Meu ser arremesso
Despedaço o elo do temor
e recomeço
Em franca liberdade
Viva a maturidade!
o
o

ANIMALESCA

O
O
Já escrevi como quem berra
Já escrevi como quem late
E um pouquinho como quem mia
Agora desejo escrever como quem pia
piu! piu! ...

E quem um dia me dera
Ver-me passarinho
Em uma tarde singela
Cantarolando à sua janela.
O
O

PRESENÇA

O
O
Foi só silêncio
Esta noite vaga
Estranhamente povoada
Por adormecimentos primeiros
Onde alheia
A tudo e a nada
Perpetuavam lembranças e aconchegos

Então vi
nitidamente
As eras escondidas
Entre sorrisos e vestidos
Avessos
estavam lá, desde sempre
Onde a velada inconsciência
Silenciosamente
Impera
Sem resistência
O
0

RESISTÊNCIA

Absorvo-me
Em exigências
Quase subumanas dos nossos dias

Desintegro-me
Pulverizo membros
Exponencio-me

Deforma-me a carne
Película tênue
Transitória
Indiferente
A ditadura contemporânea

Dias prováveis
De impróprias convergências
Inóspitas demandas
Áridas vivências

Expectadora
Esmurro virtual
A tela
Ao fluxo
Da corrente trama
Tecer escolhas próprias
Ou
Em anestésica
Máquina supersônica
Atender
As exigências quotidianas
Da convulsiva
Vida urbana.

LIMITE

o
Quintal árido
Estiagem de esperança
Brincam crianças
Dança o vento
Revirando folhas secas

Espiam a vida
Alheias em brincadeiras
Indiferentes ao sofrimento
Infância em abandono
Sem pátria ou bandeira
Um fio
Entre o futuro
E o limite muro.

o

INQUIETAÇÃO

o
o
Em meu finito espaço
Verto inquietações
Espalmo o tempo
Com palavras subjetivadas
Venço o verso

No universo vago

Lanço projéteis
Abro clareiras
Em busca do todo
Tateando estilhaços
Onde as respostas fogem
oooo incógnitas
Entre quatro paredes de aço.
o
o

EFEITO AMOR

o
o
Quando meu amor se faz dia
ooo Irradia
Se em noite transfigura
ooo Ternura
Se o meu amor aumenta
ooo Flores na varanda
ooo Jantar à luz de velas
Ao que meu amor se abala
Maior amor à tona
ooo Revela
Quando meu amor transborda
ooo Jorra
ooo Fecunda
ooo Terras férteis
ooo torna.

0

CELEBRAÇÃO

Eu saberei de ti, meu amor
Por todos os dias
Conquistar-te-ei diariamente
Vou guardar o teu cheiro
E gerar tua semente

Buscarei de continuo
A amplidão da sabedoria
Para que não me falte palavras
Quando nas longas tardes
Descortinarmos a existência
E recostada em teus braços
Entre livros e felicidades
Apreciar teus nobres pensamentos

Vou cuidar de você
Vou ser sol e mar
Vou ser teu refúgio
Tua rica morada
Vou levar ao teu encontro
O cheiro da terra molhada
Para contigo celebrar
O renovo da vida

E após longos dias
Ao teu lado vividos
No regozijo da tua presença
No desfrutar da tua essência
Olhar-te sereno e gentil
Tocar teus cabelos morenos
E sossegar no teu fôlego
Deitar-me ao teu lado
E rir-se de uma vida farta de amor,
Regada ao teu doce sabor

Assim quero selar contigo
A mais bela das histórias
E fazer novo
O que tempo faz velho
Ser para tantos inspiração,
E para outros conselho

Vem meu amado,
Em quem minha alma se alegra,
Celebra sem reservas
Pois sem vacilar nos defendemos
Minha foi tua causa
Minha guerra foi tua lida
Assim fomos feitos fortes
Subimos montanhas
Descemos abismos
Vencemos desníveis e empecilhos

Faz de mim a cada dia
Teu campo de flores
Colhe aromas
Sacia-te
Em sabores

Que seja para sempre assim
Terno e profundo
Divino e meramente humano
Delicado e valente
Pois a ti meu amor
Conquistarei diariamente.

CRISE

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Apresentou-se diante de mim um Fogo intenso que bradava ameaças de grande incêndio e devastação, a tal ponto, de arrasar com minha pequena vinha. E nos seus olhos que ardiam desolações, crepitava a violência, avaro e ira. Eu temi e pranteei. Temi pela lavoura, pelos que dela sobreviviam e pela esperança semeada.

Porém, levantei-me do terror e do pranto que me murchou o olhar da colheita por um instante. E vislumbrei no horizonte as horas da esperança, a guerra contra as pragas, o suor, os calos encravados na palma da mão e a ânsia da espera quase materna.

Então, firmou-se meu olhar. Cerrei os punhos, sem violência, mas com a resignação de quem protege sua cria. E disse: Fogo, por que desejas devastar minha vinha? Em que te apraz à destruição obstinada se ao final de teu intento, deixa-me as cinzas da tua própria extinção? Por entre as gerações fez-se notório teu nome, pois te ti o aquecer, moldar e forjar. De ti a luz do astro que dormita na escuridão. Não, não te consumas em ruínas e danos, mas faze perpétuas tuas chamas. Desfaça o furor das labaredas impetuosas e momentânea. Goza da perenidade de ser fonte no esplendor do lume das eras.

Lancei assim minhas palavras sobre as chamas. E elas caiam como respingos tímidos que ressoavam mais intensos a cada momento. Até que transbordaram. Até que conteve o Fogo, e a ira e a desolação. E quando restava pequena e tremula chama, peguei minha lamparina, a guarneci de azeite em abundância, e brandamente transferi o Fogo ao pavio.
E não mais houve ameaças. Verdejou e cresceu a minha vinha. O povo prosperou e gozou dos seus frutos e o fogo dominado cozeu esses frutos.

0

MINHA VIDINHA I

o
o
Bravo! Por um viela
Lá vinha Vidinha se esvaindo
Bravo! e Vidinha se arrastando
Bravíssimo! Vidinha já desvairando...
Ali parou, se recompôs
Colocou seu melhor sorriso
Um tapinha na face,
Saúde,
Pose elegante, virtude
Então
Cumprimentou seus amigos
Como se nada,
absolutamente nada
Houvesse acontecido.
o
o

PLANO DIÁRIO

Quando deita a madrugada
E o primeiro sol do planalto
Bate à janela
Traz consigo a chamada da alvorada
A mais uma lida diária
Sob o céu de Brasília

Nós aqui das satélites
A caminho do Plano Piloto
Meteoros de concreto, decreto e asfalto
Conchavos, acessos e vias
Estrutural, eixo monumental
Congresso, esplanada e rodoviária

Entre engarrafamentos e buzinas
Baixa umidade, pardais, flanelinhas
A beleza singela dos canteiros
Com suas flores do cerrado
Forrando balões, tesourinhas,
ooooo entre quadras
Harmonia de cores, aromas e formas
A desejar-nos bom dia
Em mais uma longa jornada.

(simone gois)

BECO

o
o

Tenho que escrever

às pressas

Pois é assim que sobrevive
minha poesia

de sobras e de brechas
0
0

PRESSÕES

o
o
Tenho minhas depressões
ooooo em segredo
Diluo frustrações
Amorteço pressões
ooooo e vivo
Venço diariamente
As agressões do meio
ooooo e da mente
Sem devaneios
Duelo com a realidade
Embargo sentenças
E sigo
ooooo esperança.
o
o

VIAS

O
Ser poeta não é ofício
é vício
que não tem cura
nem por ternura
nem por tortura

O

COTIDI-AMO

Cotidianamente,
Corre-corre
Pique-pega
Manhã escola
Tarde
ooooo Tarefas
ooooo Balé
ooooo Natação
Noite saudades
ooooo Beijos
ooooo Abraços
ooooo Dever de casa
ooooo Cansaço
Pra dormir
ooooo Histórias pra sonhar
ooooo Oração
ooooo E bençãos
Sono profundo
De quem é hoje
Da minha vida o fruto
E a semente
do futuro.

(simone gois)

SEU TOM

O meu amor veio tarde
Trouxe questões entre abertas
Trouxe bagagem de ansiedades
Música nas veias,
E uma guitarra vermelha

Trouxe o tom do que viria
Dúvidas abissais
Ventanias
ooooooooo Juventude
Renúncias verdadeiras
Arrancou-me o escudo
Plantou-me uma certeza

Objetivos
Adjetivos
ooooooo Uma aliança
Porto amigo,
E um lugar incomum
Antes dois
Agora um.

(simone gois)

SOBERANA MENTE

Enquanto se faz o circo
E as barrigas roncam vazias
Zombaria corre solta

A sobrevivência em luta severa
Deixa em profunda espera
A luz tardia da libertação

Quando a razão ganhar voz
E isso há de ser breve
E se erguer a nação
À angústia do excluído
E o clamor do aflito
Será nossa bandeira
O cessar de conflitos.
Então bradará uma geração

- Chega de circo e pão!

Eu quero minha nação
Em busca de muito mais
Um povo que se agiganta
Em consciente soberania
Exposta a intolerante tirania
Escrever de próprio punho
Um novo rumo pra sua história
E fazer valer com sucesso
Cicatrizada em memória
-“ Ordem e Progresso”

(simone gois)

DOR

o
o
O que percebo
O que sinto
Minto omito invento
Faço que sim
Isento-me.
o
o

DIA A DIA

o
o
Por um chuveiro
Urbano
Desce cristalina
Água
Limpa a derme
Extrai o verme
E escorre
Preciosa e suja
Pelo ralo
o
o

LINHAS

o

o

Escrevo não porque sou
ou tenha
Mas porque me falta

o

e sinto
0

0

SAUDADE

o
o

Como esquecer
Se é presente a ausência
E o silêncio grita
oOoo Existência
.

o
o

BELO AMOR

Pois o amor há de ser eterno
E há de ser terno
Ele há de ser belo
E atender da alma os anelos

Ele há ser cuidado
E ser tocado
Acariciado e mimado
Como a criança de colo

E sem reservas ser apaixonado
Declarado e notório
E ser tranqüilo e suave
Como na tela a paisagem

E ser nutrido, para florescer
E ainda que leve tempo
Ser renovado seiva e semente
Para que se faça belo hoje
E para sempre.

(simone siog)

MONÓLOGO COM ESPELHO (pra quem descobriu que dá pra conviver com as celulites e um tanto quanto fofinha!!!)

ooo
Oh! Espelho cruel!
São a mim tuas respostas
Mais amargas que o fel
De tua presença inspetora
Nem ao menos um alento
Nem sequer uma ventura
Pois gritas a todos os cômodos
Meus centímetros de gordura

Se das adiposidades
Algum peso me subtrai
Nem assim tu me animas
Com teu ar tão desdenhoso:
- Eras gorda, agora sois flácida
Tal qual um criado insolente
Indiferente à minha desgraça

Em postura cínica e estática
Mais me infliges sofrimento
Pois causas em mim toda fúria
Dadas tuas sentenças tão duras

Eu hora triste, hora cansada
Entrego-me a derrota indumetária
Visto uma leg permissiva
A gordas, flácidas, baixas, cumpridas
A desenhar-me as celulites
Por panturrilhas, coxas e bunda
Ignorando tão vil humanidade
Indiferente aos teus cruéis palpites

Mas se a sensatez me recobra
Vejo você tão inerte
E lembro que és apenas uma peça
Sem vida, lembrança ou memória
És apenas um acusador
Deselegante a qualquer hora
Uma peça vil
Disposta a refletir
A quem quer que se aproxime
Pois não tens vida própria
És apenas refletor de vitrines

Sim, neste cômico drama
Sou eu quem te apavora
Pois tenho vida pulsante
E posso certamente
Reescrever minha história

simone gois)

TRÊS

Agora são três.
São três os meus amores,
Três caminhos,
Três mundos,
São três cores.

Generson, Camille, Louise
E quando adentro a porta
É só o que me importa

Desafio presente
Projetos futuros
Sujeira no chão
Rabiscos no muro

Band-aid, pomada, carinho,
Colo e computador.
São três lições,
Três refeições,
Mastigando de “vagarinho”.

(simone gois)

POETA NOVO

Poeta novo é assim
Não come
Não dorme
Não retrocede
Escreve
Jasmim

É fogo
Indomável
Inconsumível
A conjecturar que o mundo
Precisa de si
Poeta novo é assim
Imprescindível

Acredita
Correr em suas veias
A teia dos signos
Do mundo real
E do imaginário
Poeta novo é assim
Hilário

Entre gênio e demente
Entre santo e doente
Em uma mão a estola
Na outra a caneta pistola
Em um abismo abissal
Poeta novo é assim
Marginal

Comendo palavras
Ruminando pensamentos
Extraindo sentimentos
Dando a mão a palmatória
Escrevendo sua história.

Poeta novo é assim
Ai de mim

(simone gois)

NACIONALISMO DE GAVETA

Meu nacionalismo é de gaveta.
Mas sai pras temporadas.
Ele pula carnaval
Vai à copa do mundo
E vota em urna eletrônica
Em apenas 30 segundos

Meu nacionalismo
Só não tem tempo
Para se engajar na causa da escola
Ignora a arma engatilhada
Das salas vazias
E as mazelas e martírios daqueles
Que por oito ou até doze horas/dia
Ensinam aos nossos jovens
O sentido da cidadania

Meu nacionalismo é político
No mais baixo sentido
Sem causa ou ideologia
Político institucional
E como tal,
Disputa via manchetes de jornal
O ensino diário da sociedade
De tal forma
Ao que a escola forma
Tal instituição deforma

Meu nacionalismo de carnaval
Não denuncia o caos do hospital
Aqueles da rede pública
Rede de interesses
Infestada de descaso
De vias burocráticas
E corredores lotados

O meu nacionalismo
É ardente
Nos campeonatos locais,
Regionais, internacionais
E aos ais dos hospitais
Morte súbita nas filas,
E até o final da partida
São mais noventa minutos,
E mais centenas de vidas
Mais noventa, mais noventa...

Meu nacionalismo é burguês
Pinta a cara e desfila nas ruas
Participa de passeatas
Faz donativos
Inscreve-se em ONG´s
E volta pra casa
Com a sensação do dever cumprido

Meu nacionalismo é manso
Pois tem também o rabo preso
Tem dois pesos na balança
Pois o tio do tio do irmão
Da minha madrinha
Também tem cargo de confiança

Meu nacionalismo é covarde,
Não tem compromisso, é omisso
Não é militante, se cala
Não discute, consente
Aceita migalhas pré-estabelecidas
Não determina,
Não se indigna

Por isto em nota, procuro respostas
Para perguntas de base e fundamento

Como amar a pátria?
Cadê nossa identidade?
Onde estão nossos símbolos?
Como asceder coesão e desenvolvimento?
Quem são nossos representantes eleitos?
Quem acompanhou seus feitos?
Quem cobrou seu direito?

Disto posto,
Ainda a questão
Como torna-se nação?
Para deixar de ser povo
Cada um por si
Deus por todos
E fazer meu nacionalismo ser capaz
De defender os direitos primários
De investir no operário
De dar voz aos oprimidos
De batalhar suas causas
E arrancá-los do conformismo
Semeando a esperança
Promover a cidadania
Para colher uma sociedade
Mais justa, plena e sadia
Com a semeadura do entendimento
Na plantação do desenvovimento
No resguardo da soberania

(simone gois)

INVERSO VALOR

Seria o justo o tolo
E o crápula honesto ?
Projetos e esforços
Menor que a lei da aposta?

Seria tristeza cooperar
E à vida do próximo dar o aval?
O humilde é Zé
Incapaz capacho do Lau.

Seria feio trabalhar honestamente?
E vergonhoso ser idealista?
Causa estranheza o altruísmo?
Soa piegas tratar com a verdade?
E ter uma vida de dignidade
E dignificar assim o seu povo?

Tem coisa cheirando mal.
Os maus tomaram o poder.
Nós elegemos monstros
Pra conduzir e resolver.

Quem tem poder?
Poder pra quê?
Poder só pra corromper.

Corromperam a razão
Venderem a moral
Zombaram da verdade
Em bizarra letargia social

Viva a vida momentânea
Do êxtase do dinheiro fácil!
Do sangue sem valor
Que escorre do morro
Em gritos de horror.

E dos palácios construídos
Com mármores e vidros
Em conchavos vergonhosos
De políticos inescrupulosos
Que buscam poder...
Pelo preço que for

O justo se entristece
E o homem de bem range os dentes
Ao pranto do necessitado
E a fome das crianças magras
O terror do pai de família
Na mão de homens dementes

Filhos sois, políticos devassos
Do desterro e da maldição
Aves de rapina e carniça
A rir-se do sofrimento alheio

Hão de arder no inferno
Pelas vidas ceifadas
Em suas investidas imundas
Com estratégias desumanas
A atirar sem pudor e nem vergonha
O seu pais em cova profunda

Desse mar de infame e lama
Se ouvirá clamor e drama
Restarão vidas mutiladas
Aleijões de caráter e comportamento
Com sede de morte por sustento
Como fantasmas errantes
Com seus olhos flamejantes
Buscando também se impor
Batendo tão forte e covarde
Como a agressão que também sente

Qual será a paz de espírito
No dia em que os justos
Homens limpos de mãos e de mente
Tomando o poder com legitimidade
Lançar atrás das grades
A todo aviltante abutre
Para ter a paga devida
Pela destruição da vida
Por distorcer na mente em formação
Dos nossos jovens e crianças
O sentido da verdade e da justiça

E será pra nossa mente sossego
Saber haver lei sem engano
Para o bandido mais hediondo
Aquele que tendo a oportunidade
Negou agir com a verdade
E atender ao anelo dos povos
Por paz, justiça e igualdade

E em cárcere comum
Terão por companheiro de sela
O fantasma da consciência
(ainda que se duvide de sua existência)
A assombrar-lhe de noite e de dia
E ser-lhe-a por juizo severo
Em flagelo e tormento eterno

Pelo bem que não se fez
Pelo pão que se negou
Do pranto que não calou
Do direito que usurpou
E das vidas que violou.

(simone gois)

NUVÉNS

Encontro-me quando alcanço
As minhas verdades,
Ainda que meia amarelas
Não tão exatas, mas sinceras.

Meus defeitos não são tão ruins,
Minhas virtudes tem fim.

Vou me denunciar.
Vou renovar meu vocabulário,
Vou tirar as roupas velhas do armário,
Vou completar meu álbum antigo,
Não vou mais me sabotar.

Vou ao meu encontro
Antes bailarina,
Depois medicina,
Hoje simplesmente eu
E desde sempre sonhos
E para sempre vejo,
Menina deitada no chão
Vendo as nuvens passar.

(simone gois)

RAJADAS

Rajadas de metralhadoras
Rajadas de mentiras
Guerrilha e sangue
Senado, câmara e quadrilhas

Morre no morro
Aquele garoto tão tenro
Morre sem chances
No país do futuro

Um tiro na cabeça
No horário estudantil
Na escola caindo os pedaços
Em estado sub-humano
Transformada em barricada
Do cangaço urbano

Finda a luta do menino
Morador da favela
Com sobrevivência extraída
Sob chuva e sol
Em dura lida
De farol em farol

Mais um brasileiro executado
Entre bandidos e soldados
Sem rosto, sem voz,
E agora, sem vida.

Quem disparou a arma?
Quem fechou os seus olhos?
Quem chorou no seu velório?

Os burgueses fingem não ver
Os políticos fazem discursos
E a vida vai levando o mesmo curso
E o descaso cobrando seu alto custo.

(simone gois)

PONTE


Dentro em mim
.....Há dois mundos
..........entre eles: um Abismo
......... A razão que a tudo controla
...............E o mundo emocional que discorda
.......................

...............................Há guerras
...................................Estopins estratégias
..........................................Só não há paz
.....................................................Pois a Razão interroga
...........................................................Todo impulso - espontâneo
....................................................................Pondera, mede os pros
...........................................................................e os contras
..................................................................................E só depois comanda
.............................................................................................Conforme sua análise métrica
..........................................................................................................E o mundo Sentimento
....................................................................................................................Acuado
............................................................................................................................Devolve
.......................................................................................................................................Irracionalmente
....................................................................................................................................................Tensão
..........................................................................................................................................................Depressão
.............................................................................................................................................Faz-se o Abismo

....................................................................................................................................E a poderosa Razão
............................................................................................................................vagueia
............................................................................................................Sem as rédeas da vontade,
..................................................................................................E o ciclo se renova
........................................................................................Pois o Sentimento andarilho
.............................................................................Também se recente a deriva
...........................................................Sem a guia da realidade.

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FELIZES PRA SEMPRE

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Apesar das dores, creio em promessas. Vivo de amores , anseio romance de rotina. Suspiro aos beijos ante a película - fina. Dos lábios ensaiados que projetam ardores de um final feliz.
Sim, eu sei. São ensaiados, qual o dano? Se cada amor cuidado fosse com detalhes de um roteiro, esse suspirar rotineiro, de muitos não se derramariam. Rios de dor evitados seriam
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ESTILO DESCARTÁVEL

No trânsito do carro e do passo
No corredor da vida individual
Há gemidos de dor e de fome
Há clamor por um valor igual

Enquanto Versace versa a moda
A tua miséria incomoda
O estilo dos descartáveis

As oportunidades são brechas
Em um muro blindado
A chance é um risco
O mundo é um circulo fechado.

Igualdade é tese sempre na moda
Vestida em várias bandeiras
Discurso farto de uma prática vazia
Inversão de valores
Infestação de preconceitos
Em civilizada hipocrisia.

(simone gois)

SENTIMENTO

Eu sou rio de sentimentos
Dos meus poros mina
Cor e emoção
Eu sou um frágil lamento
Da emoção que se contém

Porque pra sentimento
Não se tem tempo
Ou se há tempo
Não é tocado
Por ser terreno minado

As coisas da alma
Nem sempre são
As coisas da fala
Que disfarça vazia
A imensa solidão

Mas se sentir é tormento
E um tormento solitário
Sentirei em mim a alegria
De falar dessa enxurrada
Que muitas vezes escoa
Na vala da incompreensão

Mas se todos também sentem
Qual seria a explicação?
Que diante da máquina fria
O coração se esvazia
E perde a sua vez?

Porém, eu sonho ainda
Com ternos momentos
Sentada ao meu fio
Passar horas a fio
A falar de sentimento

E quando não restar
Mais nada a dizer
Encostar de vagarinho
No teu cúmplice ombro
Com a alma saciada
E ver o dia amanhecer.

(simone gois)

CUIDADOS

Quando perto
Porto longe
Partes minha alma
Despedaças meu coração

Quando longe
Longos de mais
Dias e noites
Aperta a solidão

Não, eu sei
Não é desamor
É tempo, é posse
É esse costume
Qual bom perfume
Que por mais caro
E por mais raro
Vicia os sentidos
E não se percebe mais

Cuida das nossas coisas
Cuida do nosso amor
Ainda que em aliança sincera
Se recente da espera
E pede tempo e mais calor

(simone gois)

TRISTEZA

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Debruçada sobre tuas ânsias
Minha mente segue as instâncias
Dos teus processos
Protestos e diagnósticos
Do teu eu reverso

Espero e velo
Que ao mergulhar nas profundezas
Da tua alma aflita
Meu eu desvie dos teus termos
Dos teus males
- Mal resolvidos amores

E arranque das tuas entranhas
O teu ermo sulfuroso
E estanque o mal das tuas dores
- Incontidos dissabores

Assim contenha a tristeza
Que pare diariamente
A tua morte precoce
O teu aborto emocional

Para que a lucidez que lhe resta
Te seja por sementeira
Para a longa jornada
Nesta terra derradeira

Onde tuas angústias
Em negras nuvens
Arrastadas em rajadas ventanias
Como a luz da aurora
Desfaça as trevas da tua existência

E em tua amarga história
Que confunde a melodia
Das tuas rimas frias
E da tua voz balbuciante

Reflita em tua longa trajetória
E introspecto
Derrame teus lamentos
Em infame lama
Dando fim a tuas queixas

Para que enfim te ponhas resoluto
Retira o luto dos teus olhos
Pleiteia outras causas
Para se moldar e forjar favorável
Entre dores e lágrimas
Tua nobre alma
Branda e inabalável

(simone gois)

INDIFERENÇA

É difícil dizer o ser diferente
No indiferente de cada um
Que ao buscar a diferença
Caem sempre no comum.

É comum não ser igual
É normal não ser comum
E a nada se compara
Absurda existência
Cada mundo, tem seu motivo
Cada vida, um desatino

Fútil, em vazia busca
Individual, inultimente,
Exclusivo e obscuro
Segue sempre,
Omisso, cego e indiferente.

(simone gois)

ENGODO

Caídas as máscaras do falso riso
Do folhetim da manipulação
Teremos mais tempo a refletir
E inquirir aos inimigos da nação

Os que não vieram à servir
Que enganam e fazem rir
A quem também optou por mentir
A si mesmo e para seu irmão

E se negam a enxergar
A realidade posta à mesa:
Subdesenvolvimento,
Violência e pobreza.
Sentença a muito imposta
Por manipuladores da lei
Cruéis, vorazes sem resposta

Parasitas intratáveis
Traidores covardes
Consumidores do suor operário
Maestros desafinados
Da subvida, subdesenvolvimento
Sem pátria, sem nome, ou moralidade

Em condutas indecentes
Há de ser banido pra sempre
O opressor do aflito
Corruptor de inocentes

Com suas imundícies expostas
A escorrer como fossas
A qual causa repugnância
A quem quer que verifique
A decomposição da decência
Mal cheiro, podridão e detrito.

(simone gois)

TERAPIA DE POBRE

o
O mal do século é a depressão. E quem não sabe disso, nestes nossos dias de pressões. Chega a ser tão grave, que o assunto é bastante abordado nos meios de comunicação. Aqueles que sofrem deste mal e possuem condições financeiras, lotam os consultórios de analistas, psicólogos e até psiquiatras em busca de auxílio. É um caminho a seguir. E quem não pode? Hoje que sou adulta, que já amarguei como um bom ser humano contemporâneo, minhas cotas de tristeza, sei que depressão é uma vala na alma, um abismo de dor infindável, um vazio. Vazio que de tão vasto, se preenche. Enche de amargura, de uma sensação de nada, que violenta qualquer existência. Nunca fui à analista, embora já tenha até pensado nisso. Às vezes me imaginava sentada em um consultório, falando de mim para um profissional. A idéia nunca me soou agradável, pelo contrário, fria e desconfortável e até desconcertante. Então eu mesma me explicava, que não é bem assim, com a ciência avançada, temos um especialista para cada assunto. Especialista para questões físicas, químicas, da psiquê, da alma, das causas. Enfim, fiquei neste dilema, que passou a ser mais uma das questões não resolvidas em minha vida. Mas o interessante, é que pensando nestas questões, lembrei-me da minha mãe. Uma mulher muito simples, uma mulher alegre. Alegre mesmo. Onde ela estava, era sempre a alma da festa. E isso não é porque não tivesse problemas. Tinha-os. E eram muitos. Problemas financeiros, problemas com a saúde, problemas familiares, que não vem ao caso citar, mas eram bem sérios. Se fosse eu que os enfrentasse hoje, não suportaria. Então, por que minha mãe sempre conseguia esbanjar, alegria, energia e sorrir com tanta liberalidade como ela fazia? Lembrei-me então que minha mãe não guardava mágoa na geladeira para saborear mais tarde, não aprisionava os desgostos na mente para virar tumor, não maquiava aparências para as vizinhas não saberem de suas turbulências e sofrimentos. Antes de tudo, havia uma franqueza em seus gestos e palavras que me impressionava. Diante de nós, seus filhos, e de suas amizades, falava abertamente de suas dores, decepções, erros, acertos, martírios, desgostos, injustiças e sonhos. E narrava de tal forma, que prendia os expectadores a ponto de arrancar de alguns lágrimas, de outros aplausos. Mostrava-se humana. Por mais que falasse de uma falha sua, de uma vacilo feio, não se podia olhar pra ela como uma pecadora, era tão sincera e nobre em suas sentenças, que dos seus abismos ressurgia gloriosa. Creio que sua maior glória, foi o perdão, ela sabia perdoar e recomeçar, sempre. Mas o fato é que assisti, por vários anos, minha mãe usar e abusar da terapia da pobreza, não represar as tristezas, mas falar aberta e francamente, e ser capaz de rir até quando o riso não cabia. Colocava pra fora todo lixo que a vida lhe empurrava, se limpava, se desintoxicava, e podia dormir sem antidepressivos. Sua auto exposição para muitos hoje seria considerada vulgar e inútil, mas eu que acompanhei parte de sua trajetória, sei que ela exercia um método que hoje muitos pagam caro nos consultórios de luxo. Embora boa parte de seus problemas nunca tenham sido resolvidos, ela não perdeu a alegria de viver, não contaminou outras fontes da sua alma, e ainda pôde plantar e colher esperança.


(simone gois)