BLÁ BLÁ BLÁ



Tive uns desmaios esses dias... e foi tão brusco, tão abrupto, sem o menor  aviso prévio ou refinamento, que achei de uma tamanha deselegância do cérebro desligar o interruptor assim e me deixar indefesa feito a Terezinha de Jesus.
Quando retornei à tona, desse mergulho do nada, no nada, fiquei naturalmente intrigada com os porquês e causas e efeitos.
Será que há momentos em que o desmaio é uma solução possível? Uma pausa perigosa entre os apertos da vida? E se é uma fuga,  sem a escolha de percurso, sem o momento oportuno, é então um risco que não vale a pena. É um além de um sei lá de entorpecimento, sem se premeditar,  sem dissimulações. Um ato falho. Involuntário, é ausentar-se estando presente, um bloqueio, uma defesa indesejada.
Desmaiar de olhos abertos, pois há também essa modalidade, é bem mais perigoso ainda, e se dá quando a situação é um confronto tão direto e inescapável que  há uma agonia como em ondas. E é  crescente até o ponto de quebrar-se por agigantar-se  além de suas próprias sustentações. É um desmaio que se sofre consciente.
Já tive também desmaios assim, a diferença é que um, te leva ao chão, com ou sem cavalheiro pra te dar a mão, e pode até haver sequelas.  Meu dedo polegar ainda dói. O outro, pode te arremessar nas profundezas da alma, trazer algum desconforto e até sofrimento. Mas se entendido e vivenciado com um coração correto, pode até ser uma forma de cura. Tortura? Não, cura.


BLÁ BLÁ BLÁ


O
Tenho um cansaço dentro de mim tão cansado, que sua fadiga me aborrece. Tem uns desejos dormindo em mim e o seu abandono disfarçado de sono, se alonga e parece não ter fim. Tem também um absurdo se fazendo de ouvido surdo e uma promessa que tem muita pressa. E tem ainda um silêncio. E o silêncio tem um grito, um grito preso por um fio; por um fio de esperança. O
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VIAS IV



E volto ao ponto final, ao ponto de início, ao ponto do fim. Entendo. Eu entendo a ponto de um voo, voo de libertação e libertação a ponto de salvação. Mas não a salvação do menino que eu vi.
O menino bang-bang, mocinho-bandido entre dois soldados, também pais, também armados. E o menino abaixando a cabeça, deixa escapar da algema um sorriso que pra não ser triste nem fraco é cínico. Mas mesmo assim é desamparo. Desamparo de hoje, desamparo de sempre.
O homem não voa, pensa. Seu grande voo, sua prisão. O menino não. O Menino espetáculo repetido, de uma trupe errante, um bando, uma gang, sem roteiro, sem destino de tudo, sem rumo, rumo ao despenhadeiro. Eu vi mais dois e tive medo. Eu vi tantos.
Eu vi o desamparo do casal de quase crianças que se amparava e criava as suas. A mãe, uma sobrevivente, eu sei porque vi as suas marcas, labaredas violentas corpo abaixo, corpo acima. Na cintura escanchada a caçula e no piso de birras a outra chamava a atenção do pai, menino lavador de carros, levador da vida e já cuidador de família. Ele, ergueu a pequena do chão e também a escanchou na cintura e foi resolver suas coisas. Ela ficou altiva, princesa pobre coberta do ouro da atenção do pai. Pareceu-me bonito que eles não tendo muito, se tinham tanto. E desejei o felizes pra sempre. Eu me consolei com esse pensamento e fui resolver minhas coisas. Grande coisa.



SEMENTE



Gosto desse clima ameno, calmo, temperado, sereno, sem extremos. Nem o frio que me agride, nem a tempestade que intimida.
Tem um silêncio de domingo dormindo um pouco mais. Tem um calor tranquilo de domingo sorrindo, domingo se abrindo em flor, domingo pedindo paz.
De flor em flor, minha orquídea se abriu em domingo e não há como olhá-la sem gratidão por tamanha beleza compartilhada. Mas há quem o faça. Há caos que não permite a gratidão pela flor que floreia e perfuma. Eu rogo para que todo caos se desfaça em ordem plena. Para que se possa desfrutar e fazer valer a pena cada flor que se doa sem rancor  e perfuma as varandas, os jardins, perfumando o amor e a própria vida. E não digo assim pela flor, mas pela dor de quem não pode percebê-la,  ainda.
É certo que cada um tem seu jeito de saborear o domingo, até lamber o prato e aguardar o próximo com gostinho de quero mais. Eu também quero.

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