SOBRE(VIVÊNCIA)

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O cinza da manhã fria
atravessa a retina

desafia
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e ao contrário do que se imagina
tinge-me por dentro
de ensolarada
alegria

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MENINICE III

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entrego-lhe uma pequenina pedra colorida em tons de verde, ela olha admirada e diz que é linda, tão linda quanto suas pedrinhas marrons, e agradece. Então, lembro-me que a menina era assim mesmo, encontrava beleza em tudo a sua volta. Era da pureza do seu olhar que fluia a beleza da vida, das coisas raras, das coisas simples.
Mas o que é que a vida vai fazendo com a gente? Mas o que é que eu deixei a vida fazer com a menina? Em que esquina eu traí essa percepção do mundo que não eleva nem diminui, mas iguala no melhor de cada um. Que não exclui, antes, ajunta naturalmente e é feliz.
Eu me recompondo, alinhando o pensamento, amparando uma lágrima a tempo da queda, pego na mão da menina. Ela me convida pra conhecer sua cidade de pedras. Passo pelas ruas cuidadosamente planejadas, há uma praça no centro da cidade e no meio da praça, há um jardim. Ah, o jardim de flores e folhas colhidas dos canteiros da mamãe. E não me lembro de broncas por retirá-las. Eu não sei se a aborrecia, mas vejo a menina orgulhosa do perfume exalando do seu jardim.Enquanto isso, meu pai passa urgente à margem do seu pequenino mundo. Ela tenta lhe mostrar seu trabalho, mas ele somente acena e passa grave e mais urgente. Eu sei que depois, logo depois, ela vai saber da sua pressa e desatenção e vai entender. Ela vai saber entendê-lo.Ainda segurando em sua mão pequenina seguimos. Viramos em uma esquina, ela olha pra mim e sorri. Mas eu reconheço este caminho, eu sei o seu percurso e o seu fim. Vejo uma escolha difícil, uma experiência ruim. Então me antecipo e impeço que ela continue, puxando-a pela mão a faço regressar. Voltamos ao jardim da praça.
Ela ainda pensativa me convida pra sentar ao chão e  serve-me um chá de faz- de-contas com biscoitos fresquinhos de terra vermelha. E o faz sem se dar conta de tamanha doçura, da tamanha riqueza que extraída da pobreza em que vivia. A menina era mesmo assim. Ali, olhando em seus olhos  lembro-me claramente que algumas experiências ruins foram como vacinas e preveniram dores maiores, angústias sem fim.
Se eu pudesse voltar no tempo, o que faria diferente? Não sei, não sei. E o diferente aonde levaria a menina? Não sei. Então, eu beijo a sua face, lhe faço um carinho e parto. E deixo que a menina siga o nosso caminho.
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MENINICE II

Estou pequenina em mim mesma cultivando um egoísmo íntimo e certamente indivisível. Só compartilho sua existência como quem obedece com certo emburramento infantil, porém com respeito a um mais velho, para fins de registro diário. Para que não se perca na diversidade e acúmulo dos fatos.
Mas sua natureza não é malévola. É até benéfico, no sentido de que não há gravidade neste sentimento. Trata-se de bobas questões pessoais incompartilháveis, porém apaixonantes. Meus segredos comigo mesma, com juramento de mindinho e demais convenções dos tratados e códigos dos segredos, tão bem conhecidos pelas crianças. E por aí, muito já denuncio.
O que ainda posso dizer sem muito expor, é que todo mundo alimenta dentro de si uma criança entre seus cinco e nove anos de idade, uma princesa ou um super herói. Alimentamos essa criança necessária que nos habita com lembranças de afagos, histórias, coleções de figurinhas, papel de carta, miniaturas, bonecas rabiscadas e tantos outros objetos portadores de porções da nossa infância, da nossa essência. Significados lúdicos eternos que nos fazem regressar e ver-nos em cenas tão reais da nossa meninice, como se fosse o agora.
Quando volto a um certo dia da minha infância e me vejo ali no quintal enorme, o enorme da memória, cercado por pés de Adália, eu construindo uma cidade com pedrinhas enfileiradas. Quero chegar perto e ajudar a menina. Quero buscar as pedrinhas que estão longe, as falsas gemas, os falsos diamantes que ela colecionava na gaveta da estante. Quero encontrar uma que seja rara e trazer para menina que brincava de construir em uma tarde cinza, sozinha, enquanto seus pais brigavam.
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DOS CONSELHOS QUE NINGUÉM PEDIU - I

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Gente, o sonho não acabou, as coisas é que mudaram de lugar. Por isso o estranhamento, o não reconhecimento. Na convivência a gente se esbarra, perde a fala, faz e desfaz a mala. Se fadiga pra conquistar, alcançando e traçando novos planos. Aí vai ficando mecânico, seco, sem brilho e tudo a sua volta, cinza. Mas não foi assim o combinado pra toda uma vida.
E sabe de uma coisa séria e linda? O tempo passa, mas o coração não desvanece, continua sempre esperando flores na janela, café da manhã com promessas e cumplicidades ao anoitecer.
Então, faço como quem aconselha o que deveras anseia. Falo como quem defende que conselhos podem ser bons, mesmo que nada custem. Mas se de todo, julgá-los fúteis, altamente inúteis, não despreze totalmente. Creia-me, há futilidades que se provam essencialmente úteis.
Primeiro, dá folga pra TV, organiza seu tempo ao computador. O tempo é um recurso escasso, por isso vale tanto o tempo ao seu amor dedicado. Procure assistir através dos olhos um do outro o filme mais importante, o filme das suas vidas, em plena fase de produção. E você é o roteirista, produtor, diretor e principalmente o ator. O sucesso está em suas mãos. Lembra quando olhando no olhar, já se entendia tudo? E o tudo cabia no instante desse olhar, lembra?
Faça um carinho, mesmo que apressado, quando passar um pelo outro nos trâmites da casa. Um cochicho ao pé do ouvido nos encontros de corredor. Beijos sem nexo, inesperados, embalados de surpresa, lembra tanto namoro, e namoro rima tanto com renovo!

Abrace muito, mesmo que sem motivo. Mas há sempre um bom motivo para um abraço afetivo. E garanto instigados os sentidos.
O humor também derruba muros, abre brechas nas camadas impermeabilizadas dos sentimentos. Então vai, conta aquela piada engraçada. Mesmo desbotada, desgastada. Conta de outro jeito, inventa outros trejeitos, só de pretexto pra compartilhar. Rir é tão bom, às vezes até dos próprios defeitos. E cura, se feito com ternura.
Ah! Quando acontecer uma discursão, que é humano, e for inevitável, comece assim: Meu amor...
Que tal ainda, trabalhar duro por um tempo sem fazer nada, caminhar de mãos dadas, transpor caos e dilemas: da fadiga, do orçamento, da desordem das crianças, dos conflitos nacionais, internacionais, enfim qualquer caos estabelecido. Dê a convivência maior sentido, pra fazer a vida valer a pena valorizando as coisas simples, as coisas pequenas. Valorizando sempre a quem se ama. E não se esqueça de dizer isso! É fundamental. Se já perdeu o jeito, treina! Lembra quando de tanta falta de jeito e ansiedade, ensaiava-se primeiro o que falar antes do telefonema, lembra?


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DAS FIGURAS ESCONDIDAS II

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É o seguinte, dependurada na noite, havia a Lua Cheia que a Nuvem Negra invejosa da sua beleza, procurava ocultar. Então, essa briga da vaidade feminina, fazia ter um aspecto de noite de Lobisomem.
Mas que besteira estou dizendo!? Lobisomem não existe! E eu não tenho medo de Lobisomem não, só da Alma dos Três Cabelinhos!  Meu Deus, quem tem medo da Alma dos Três Cabelinhos!!? Só eu mesma. E a culpa é toda da Sandra.
Bom, depois da breve constatação sobre o estado da noite, fui tomar meu banho. Ah, meu banho pré sono, é bem depois disso que eu desmaio na cama.
Mas... ai, ai, ai, lá vem as minhas figuras no box do banheiro...Vou ter que decifrar, ou nem consigo dormir.
Mas, o que é que estou vendo? Pois bem, não! não! Pois mal, é um fantasma e dos grandes!! Mas e agora!? Nem posso correr! Engulo o susto a seco, porém molhada. Calma Simone! Calma! Não é a Alma dos Três Cabelinhos não! Ufa! Pelo menos isso.
Coragem, vou descrever: Havia um fantasma enorme, todo muito branco plasmático, com apenas um olho negro horrendo no meio da face e em uma das mãos segurava uma corda de forma ameaçadora. E reparo que lá embaixo, na segunda porta do box, há a cabeça de um animal. Seria um dragão? Sim, é um fantasma com seu mascote dragão fantasmagórico muito irado!
E eu tremendo, não, não de medo, de frio.
Aí né, só que o olho do fantasma era muito esquisito e a medida que o vapor do chuveiro foi baixando, o tal olho negro foi aumentando, aumentando de tal forma que agora estou vendo mais dois olhos pequenos! Continuo tremendo, não, não de frio, de medo mesmo!
Mas de repente, ouvi um som cortando a noite, epa! Parece um trote:
poco-toc, poco-toc, poco-toc!!
Mas dragão tem casco? E trota?
Que nada. Agora decifrei tudo de uma vez: Era só um menininho brincando à beça, fantasiado de improviso com um lençol branco que o cobria dos pés a cabeça, com um buraco cortado na altura dos olhos para poder enxergar - Bem pensado garoto! E o dragão, não era nada disso. Era só o seu cavalinho com cabeça de plástico e corpo de cabo de vassoura. Quanto a
corda em sua mão, não tinha nada de ameaçadora, era só um barbante para cabrestro. E brincavam com doçura.
Ufa que alívio. Agora já posso escovar os dentes.
Enquanto isso, lá nas alturas, a Lua puxou a Nuvem encrenqueira pelos cabelos, tirou-a da frente e se exibiu por inteiro! Bahh! Briga de meninas!!


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BLÁ BLÁ BLÁ II

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Aprendi a perceber a vida pulsante nos quatro elementos e as tantas possíveis regências. O espetáculo e a discrição. Compreendi a fusão em si próprio, no amor e aonde mais a vida se alastre e renove insistente. Mas é tão alta essa literatura, e tem porte. Porte de Nobel.
No esforço de alcançar eu até fico na ponta dos pés e ainda estiro coluna, braços, dedos e pensamentos, como faz o meu filho caçula tentando a custos alcançar a maçaneta da porta. E ele sabe o que o espera, um corredor livre e repleto de oportunidades, é difícil, mas a visão o anima. Porém, é tão alto esse voo, que eu não posso, não posso.
Ai! que também há a fundura onde me perco, é tão profundo que não volto mais. Mas aprendi algo possível sobre os impossíveis, seja no voo ou nos abismos: Aprendi que se pode ser, e ser livre, assim como sinto, assim como penso, e isso me libertou. E me prendeu. Até que venha o meu corredor de oportunidades.

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BLÁ BLÁ BLÁ

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Leio pouco, mas do pouco que leio vivo. Sobrevivo. Por isso há sempre uma vontade insatisfeita lambendo os olhos diante de uma livraria.
Mesmo dando só pro gasto, me é tão intenso, que sofro. Sofri tanto esses dias, que cheguei ao padecimento. Eu chorei de tristeza. Mas antes, já havia chorado de tanto rir. E quando me lembro, o quanto ri e desejei o final feliz que não veio, não aceito. Sofro, embora compreenda. Sofro como que não entenda. Compartilhei com um conhecido, ele disse que eu entregasse tudo nas mãos de Deus!?
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DAS ANDANÇAS I

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Adolescer em Anápolis... meu Deus que foi com alegria e dor. Que recepção me fez a cidade! Era toda o cheiro, e que cheiro do shampoo colorama de pêssego que havia lá no sobrado da Zenilda. É o perfume que ficou pra vida inteira.
Mas houve a estranheza como quem estranha outro país, outra linguagem. Um estranhamento de cara, cabelos e comportamento das meninas da vila, que também era Formosa, e o choque do meu pequeno mundo P Norte.
Quando cheguei, notei que já se usava maquiagem, e eu que nem parâmetro tinha, sabia que era de forma fina e delicada, mas agredia.
Me agredia o gloss, o baton, as unhas pintadas, os cabelos brilhos, os cachos e os alisados natural, que ninguém diria.
E eu, um espantalho, todo cabelo sabonete e neutrox e kolene quando cabia. E era todo o meu rosto a estampa da molecagem, queimada do sol das tardes em jogos de queimada nas ruas de Brasília. Acho que ainda nem me importava com o shampoo Colorama de pêssego que eu não tinha.
E faço agora a mesma cara de boba-alegre com a qual ando carregando por entre semáforos e buzinas estas lembranças. Mas o engarrafamento e as filas são apenas pretextos do tempo, pois que permitem ao pensamento resgatar a menina.

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OFENSA

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Será que, quando me digo enfadada e suspiro cumprido dizendo que estou cansada, ofendo o lavrador, o gari, a empregada? O reciclador, o pedreiro e tantos outros trabalhadores de duras jornadas? Se ofendo, não é por querer. A gente dá muita volta em torno do próprio umbigo. E em nada justifica a geografia acidentada.
Quando digo que tenho fome, sem o menor pudor da palavra, como se fosse a fome primeira,
fome verdadeira, sei que ofendo ainda mais o que granjeia das sobras seu próprio sustento. O necessitado quando pede, suplica. E não é do jeito que eu imploro suplicante ao meu hidratante que dure mais uma aplicação, e mais uma, até que eu possa repor a fórmula. A banalidade não se explica.
Talvez esse meu cansaço, seja mesmo só o corpo pedindo para es-pre-gui-çar... Assim como quando o corpo tem sede e a gente pensa que é fome. É que o cérebro, faz também as suas confusões. Então, devo comer devagar, devagar, pra não comer mais que a necessidade. Aí, como menos, menos... menos que a vontade.o
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SOBRE
A EXTINÇÃO
DOS DINOSSAUROS,
OU NÃO...