TERAPIA SEBASTINIANA

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O mal do século é a depressão. E quem não sabe disso, nestes nossos dias de pressões. Chega a ser tão grave, que o assunto é bastante abordado nos meios de comunicação. Aqueles que sofrem deste mal e possuem condições financeiras, lotam os consultórios de analistas, psicólogos e até psiquiatras em busca de auxílio. É um caminho a seguir. E quem não pode? Hoje que sou adulta, que já amarguei como um bom ser humano contemporâneo, minhas cotas de tristeza, sei que depressão é uma vala na alma, um abismo de dor infindável, um vazio. Vazio que de tão vasto, se preenche. Enche de amargura, de uma sensação de nada, que violenta qualquer existência. Nunca fui à analista, embora já tenha até pensado nisso. Às vezes me imaginava sentada em um consultório, falando de mim para um profissional. A idéia nunca me soou agradável, pelo contrário, fria e desconfortável e até desconcertante. Então eu mesma me explicava, que não é bem assim, com a ciência avançada, temos um especialista para cada assunto. Especialista para questões físicas, químicas, da psiquê, da alma, das causas. Enfim, fiquei neste dilema, que passou a ser mais uma das questões não resolvidas em minha vida. Mas o interessante, é que pensando nestas questões, lembrei-me da minha mãe. Uma mulher muito simples, uma mulher alegre. Alegre mesmo. Onde ela estava, era sempre a alma da festa. E isso não é porque não tivesse problemas. Tinha-os. E eram muitos. Problemas financeiros, problemas com a saúde, problemas familiares, que não vem ao caso citar, mas eram bem sérios. Se fosse eu que os enfrentasse hoje, não suportaria. Então, por que minha mãe sempre conseguia esbanjar, alegria, energia e sorrir com tanta liberalidade como ela fazia? Lembrei-me então que minha mãe não guardava mágoa na geladeira para saborear mais tarde, não aprisionava os desgostos na mente para virar tumor, não maquiava aparências para as vizinhas não saberem de suas turbulências e sofrimentos. Antes de tudo, havia uma franqueza em seus gestos e palavras que me impressionava. Diante de nós, seus filhos, e de suas amizades, falava abertamente de suas dores, decepções, erros, acertos, martírios, desgostos, injustiças e sonhos. E narrava de tal forma, que prendia os expectadores a ponto de arrancar de alguns lágrimas, de outros aplausos. Mostrava-se humana. Por mais que falasse de uma falha sua, de uma vacilo feio, não se podia olhar pra ela como uma pecadora, era tão sincera e nobre em suas sentenças, que dos seus abismos ressurgia gloriosa. Creio que sua maior glória, foi o perdão, ela sabia perdoar e recomeçar, sempre. Mas o fato é que assisti, por vários anos, minha mãe usar e abusar da terapia da pobreza, não represar as tristezas, mas falar aberta e francamente, e ser capaz de rir até quando o riso não cabia. Colocava pra fora todo lixo que a vida lhe empurrava, se limpava, se desintoxicava, e podia dormir sem antidepressivos. Sua auto exposição para muitos hoje seria considerada vulgar e inútil, mas eu que acompanhei parte de sua trajetória, sei que ela exercia um método que hoje muitos pagam caro nos consultórios de luxo. Embora boa parte de seus problemas nunca tenham sido resolvidos, ela não perdeu a alegria de viver, não contaminou outras fontes da sua alma, e ainda pôde plantar e colher esperança.




(simone gois)


2 comentários:

Cynthia Vieira disse...

Olá Simone,

Retribuindo a visita.
Gostei muito das suas poesias e na estrutura estética que vc deu ao seu blog. Muito organizado.
Abraços
Cynthia Vieira

CHÁ DAS CINCO by Simone Gois disse...

oi Cynthia,
Bom ver você por aqui.
Fico feliz por saber que gostou tos textos, são pura experimentação.
Tudo de bom pra você!
Bjs
Simone