A vida dos dinossauros coloridos era a alegria do bebê que os amava, e o seu mundo, a banheira cheia de água morna. Seu apogeu e esplendor era a hora do banho. É que os dinossauros na verdade eram todos seres aquáticos e sabiam fazer mil piruetas nesse mar sem sal, mas cheio de espumas de shampoo, que não agride os olhinhos do bebê, como cuidadosamente descrito na embalagem. E o menino não tomava seu banho matinal sem a companhia de seus amigos. Há uma coisa importante de se dizer, sobre os homens, tão sem imaginação, com seu olhar rígido e sério, inventaram nomes para os dinossauros que eles não gostaram nem um pouco. Então, Tiranossauro Rex, Rex Diplodocus, Velociraptor , Pteranodon, Elasmosaurus e Brachiosaurus são os nomes difíceis que os homens difíceis inventaram. Mas só o menino lhes sabia o nome certo. E era simples assim como um carinho. Ele os chamava de Au-au. É por isso que eles, só atendem ao menino, que lhe sabe dizer os nomes direitinho.
Nesse ecossistema que o bebê tão bem administrava, havia funções diversas que os Au-aus cumpriam e não só por instinto, mas por amizade. Por exemplo, o Au-au verde lhe ajudava a coçar um tanto de dentes precoces que lhe nasciam de uma só vez, e lhe trazia algum sofrimento. O Au-au amarelo era o chefe do grupo, pois era o que o tinha a carinha mais sorridente. O Au-au verde-misturado, fazia mergulhos acrobáticos, desaparecendo no fundo da banheira para depois surgir na caverna das axilas para lhe arrancar muitas gargalhadas. E finalmente o Au-au Bege com lista azul, que tinha a função importante de entreter o menino ativo, assim disse o pediatra, enquanto a mamãe lhe trocava a fralda.
E o menino foi crescendo inteligente e ativo, como reiterou o pediatra. Então, descobriu logo cedo o segredo do enchimento do mar na banheira e principalmente o seu esvaziamento. E um dia o menino abriu as comportas desse oceano de carinho e pôs-se a brincar de abrir e fechar. Mas o que ele não esperava, é que a sua mãe, que nada entendia da era Mesozóica ou do período Cretáceo, de repente interrompesse o seu banho, levando-o para o trocador. Não, não foi o asteróide que fez dodói nos dinossauros. Foi a mamãe que deixou sem saber, o oceano derramando. O nível da água foi baixando, baixando, a espuma densa ficando por último e os Au-aus assustados e indefesos, nada puderam fazer.
Será que é assim mesmo? A medida que o homem, que também não passa de um menino ativo cresce e se desenvolve, de tanto descobrir e inventar coisas, se impressionou tanto com essas coisas, e brincou tanto com essas coisas que descuidou do mundo?
Mas mamãe com seu instinto materno, recolheu também sem saber, ainda a tempo, todos os Au-aus, lhes fez um carinho singelo e os colocou na bancada da pia para decorar o banheiro até a hora do próximo banho do menino.
E foi assim que eles se adaptam a um novo habitat.

O
O



DE PONTA CABEÇA

o
o
Se de repente eu amanhecer com o senso incomum aguçado? Deixo o comum em casa guardado e corro o risco do caminho contrário, mas seguindo sempre em frente.
E se eu fizer uma escultura com a pasta de dentes? E se eu for trabalhar de pijama? E ao invés do salto, a pantufa? Quem sabe uma divertida peruca.
E se, seguindo caminho, eu quiser passar em uma praça e ler com euforia em voz alta uma poesia? O que você diria?
E se ainda na praça, eu virar Maria cambota, só pra fazer sorrir o menino de botas ? E se eu imitar um camelo, pra alegrar a menina de olhar triste e cabelo vermelho? E se eu der um beijo no guarda de trânsito e fizer cócegas no carteiro?
E se eu plantar de uma vez três canteiros? Margarida, crisântemo e Adália.
E se na hora da fome, eu quiser ir a um restaurante bem chique, o que você aconselha? Eu iria a rigor, mas com coloridas meias. E se à mesa eu dispensar os talheres, pra meter a mão no prato e sugar o espaguete no ato, fazendo bico e dando corda na orelha? Como ensinou minha filha do meio. E se pra fechar o meu dia, eu quiser ir ao cinema assistir um romance fora de cartaz que eu amo demais e já assisti doze vezes ou mais, sempre com uma nova emoção? E se de tanta alegria ao fim da projeção eu cometer a ousadia de ficar em pé na poltrona e aos berros pedir bis, bis, bis !!?
Então me diz, o que você pensaria?, O que você diria? Que sou cafona, maluca ou feliz? É aí? Vai, me diz.



O

ESCOLA CLASSE 37

o
Da época de estudante, ensino fundamental, ficou a lembrança dos amigos queridos. Com isso vem a tona, alguns sentimentos gostosos de sentir. Alguns rostinhos, ficaram tão nítidos que dá vontade de dar um beijo de saudades. O tempo passa e os contados se perdem. Principalmente pra nós que nos mudamos tanto, em curtos espaços de tempo. Geralmente, havia um problema de família, por trás de tantas andanças.
Então fico imaginando como serão suas fisionomias hoje. Por isso é comum eu brincar sozinha de quem será. É mais ou menos assim: estes dias vi um policial, baixinho, meio barrigudo com cara de invocado, não tive dúvidas, pensei no Serginho. Outra vez, olhei pra uma moça muito simpática, com cara de amiga, sabe aquela cara de gente boa, lembrei da Ivonete, uma das minhas duas melhores amigas na época. A outra era a Geanne, dá até uma alegria escrever o nome delas. Tinham apelidos tão engraçados, mas eu não vou contar aqui, por conta da amizade. Não sei se elas ainda se importam com isso. Acredito que não, e talvez seja este um dos sintomas da maturidade. Fiquei sabendo que a Laudirene, agora é diretora de escola. Sei que deve estar pagando por todo o trabalho que deu pra Etiene, batendo nas meninas na saída do horário. Tem o Divino, que um dia apareceu em uma cidadezinha pra onde havíamos nos mudado. Foi um encontro caloroso. Ele me contou com vaidade adolescente que agora ouvia Ozzy Osborne e kizz. Aí eu pensei comigo, que o Divino, logo o Divino tava endemoniado! Ah, e tem o Luciano, esse era o meu pesadelo. Se vejo um jovem senhor magrelo, branquelo e sardento, examino-o. Discretamente, é claro.
O Luciano me perseguia, pegava no meu pé e encrespava com meu cabelo crespo. Todo dia era um apelido novo, e o último, nem pensem que vou falar, com esse, ele me torturava todos os dias um pouco. Agora aliso o cabelo, até que não fiquei mal. Não, não é por trauma que faço isso, é .... é ... é pra ganhar tempo. Mas na verdade; e eu sabia a verdade, é que o Luciano me amava. Amor de criança, amor moleque, mas me amava. Às vezes fazia-me algumas gentilezas e por vezes demonstrava ciúmes.

Quando eu tinha lá pelos meus dezessete anos, estava estagiando em uma empresa (na verdade eu já era contratada, mas eu sempre quis dizer que estava estava estagiando, acho chic! hahaha! pronto já me realizei) . O Serginho, me encontrou. Eu não me lembro bem como reagi, mas creio que foi com euforia. Ele deu o telefone da empresa pro Luciano, que me ligou em pouco tempo. Parabenizou-me pelo que eu estava fazendo, disse coisas boas e ainda que me admirava. Agora eu só lembro, que na hora, me senti bem com aquela ligação e aí pensei: num disse! num disse que ele me amava! E fiquei me sentindo muito especial. Até que pensei depois que talvez não fosse nada disso. Agora ele já rapazinho e um tanto mais humano, quis ser simpático, provavelmente para aliviar o peso de consciência por ter-me feito sofrer tanto.
Mas o fato, é que sinto saudades de uma época tão boa, desses e tantos outros amigos que guardo na memória, que tenho na minha história. Se um dia na brincadeira, nessa minha brincadeira, acontecer de eu acertar e reencontrar um desses queridos, peço a Deus que seja um encontro tão feliz e festivo, quanto feliz é a minha saudade. Mas sem apelidos. É meu sintoma contrário da maturidade. Mas isso, já é um outro assunt0.


SOBRE AS FIGURAS ESCONDIDAS

O
O
Tenho de criança uma mania, ver figuras ou cenas onde ninguém as vê. Só eu mesma. Assim como nas brincadeiras de ver os carneirinhos nas nuvens. Até hoje gosto disso e me encanta as possibilidades. Mas na verdade, não me esforço para vê-las, é tão rápido, bato o olho em um objeto com algum tipo de mancha ou estampa ou qualquer coisa com formato não muito definido, e pronto, de repente de lá extraio uma imagem.
Hoje eu estava tomando banho e o vapor dágua criou uma forma no box do banheiro, na verdade era uma cena: Havia um velho bizarro com cabelo arrepiado, um queixo imenso afilado e um nariz prolongado e pontudo, como se fosse um bruxo. Com a boca enorme aberta segurava em suas mãos um cachorrinho poodle. O bichinho estava em pânico, pois o velho com seus dentes afiados estava por um triz de devorá-lo. Fiquei chateada com aquele velho malvado, se tava mesmo com fome que fosse comer macarrão, e não o pobre de um cão. Aí não tive dúvidas, precisava fazer algo. Então armei-me com a mangueirinha do chuveiro, que tem como esguicho o peixinho rosa que o Generson presenteou a Lulu. Preparei, apontei e fogo, digo, água na cara daquele velhinho perverso. Só que meu salvamento, não deu nada certo. O jato de água foi grande, no que desintegrei o bruxo, lá se foi também o cachorrinho poodle. Fiquei quase triste e fim.

O
O
O

SOBRE O MÉTODO II

O
O
Não, absolutamente não sou contra o método. Na verdade é o oposto, eu amo o método que me aponta caminhos mais planos e diversos. Mas, porque amo música, nem assim sei cantar. Não me dou muito com os muito metódicos, talvez, pela minha natureza caótica. Se bem, que meu caos tem lá a sua ordem. Mas qualquer ordem, por mínima que seja, denuncia o meu caos. Às vezes confundo método com rotina, porque eu também amo a rotina. Há os que tem pavor, eu não, eu a celebro, pois com ela sinto-me segura. Segura e feliz, principalmente quando bem estabelecida e produtiva. Essa palavra produção é meio que uma compulsão na minha vida. Não que eu seja muito produtiva, mas é que ela ecoa forte até quando não sou nada produtiva. Conheço pessoas metódicas pouco produtivas.
Tenho minha rotina, e nela incluo minha prece diária. Contudo, sempre procuro ter o plano B engatilhado, caso a rotina não se cumpra, o que me frustra bastante, e irremediavelmente, lança o meu dia a reveria.
Assim concluo que, talvez o meu caos esteja mais ligado as minhas gavetas, cacarecos e minha bolsa, meu Deus! minha bolsa... Por falar em bagunça, acho que essa é a palavra mais honesta, lembrei-me de uma situação de morte, em que se procurava os documentos necessários ao sepultamento, ouvi um comentário: puxa fulana era muito desorganizada! Meu pai Eterno, fiquei chocada! Agora sempre me preocupo com a minha forma badernada de ser. Mas continuando, sei que tenho uma ordem interna bem estabelecida. Sinto isto, em momentos de crise. Parece que consigo ser mais tolerante e razoável diante de questões difíceis, que outras pessoas. Parece também, que por ter contato com o caos, consigo apegar-me a menor possibilidade de ordem, assim tenho esperança. Embora com pouco método, a minha rotina possível dentro do caos me orienta.
O
O
O

SOBRE O MÉTODO I

O
Assunto recorrente pra mim é o tarefas por fazer. Não me queixo das tarefas. Não poderia agir assim, pois os afazeres quase sempre estão relacionados a questões tão importantes da nossa vida, como família, seu cuidado, manutenção, desenvolvimento, aconchego, lazer e até mesmo carinho. Então, não dá pra reclamar das tarefas, seria murmurar contra a felicidade.
O que me queixo mesmo, é da falta de tempo para atender a tantas necessidades. Da maratona louca, que não permite desfrutar com mais calma da companhia das pessoas que amamos.
Uma conhecida me disse, que o Ainstein disse, que a falta de tempo é argumento dos que não possuem método. Quase que um tabefe na cara uma frase dessa meu Deus do céu! Mas fico cá pensando com meus botões qual foi o cálculo matemático que nosso amiguinho usou para chegar a essa sentença, quais foram as variáveis envolvidas nessa equação. Acredito que não incluiu aí, algumas questões cotidianas como as minhas. Claro que vou exigir que a minha rotina seja considerada em tal equação. Porque considero-me uma genuína representante de uma geração que vou chamar aqui de geração S. É que já temos a geração X, Y, Z, W, então agora inauguro a geração S, de Sim. Vou explicar: trata-se de milhares de mulheres como eu, que ainda princesas encontraram aquele príncipe encantado quase perfeito, sem cavalo branco, mas com tanto amor pra dar que não poderiam esperar muito tempo para viverem o felizes pra sempre. Então, casaram-se e foram viver a vida real, com toda a realeza que suas possibilidades permitissem. Assim é que fomos automaticamente promovidas a rainhas do lar, nossos príncipes a reis, os príncipes herdeiros vieram e a administração do reino exigiu todo o tempo e finanças existentes. É nesse contexto, que mulheres como eu, adiaram por anos aquele sonho de formar-se, ter uma carreira, enfim de realizar-se profissionalmente. E agora cá estamos nós, nos virando nos trinta, nos quarenta e até mesmo cinquenta ou mais, se é que me entendem, em busca desse sonho. Só que abraçar sonhos agora, a estas alturas, exige alta dose de realidade e esforço. Uma verdadeira equação matemática, na qual a propriedade comutativa não é aceita, porque a ordem dos fatores, altera completamente os resultados. Uma coisa é conquistar sua formação acadêmica e depois constituir família e outra é o contrário.
Ainstein, sábio que era, saberia criar uma fórmula para equacionar bem essas questões, mas teria que explicar bonitinho em seus apontamentos, como não faltar tempo, quando se somam em uma mesma jornada os papéis diversos que uma mulher desempenha, e no meu caso, insisto: a mãe de três, a esposa do rei , a mulher moderna, a trabalhadora, a auxiliadora pedagógica, psicóloga, a enfermeira, a governanta, gerente de compras, a promoter e encaixando nas brechas até com certo peso de consciência, a estudante. Dadas as variáveis, não iria estranhar se esse gênio, com os seus cabelos ainda mais eriçados admitisse, que o tempo é curto e o método um luxo.
O

SOB CONTROLE ENFIM

o
o
Só pra finalizar. Creio que transferir para um objeto inanimado, o amor e apreço que poderíamos dedicar a um ser humano, é bem uma característica dos nossos tempos. Tempo em que a comunicação se expandiu tanto e temos tantos amigos virtuais, que perdemos a virtude do contato. A intimidade mingua quando relacionamos em escala de multidão. Então, é mais fácil ter intimidade com as coisas que nos rodeiam mesmo. Por exemplo, eu converso com um blog, pode!? Pode. Eu falo e penso que ele responde e então continuo esse diálogo-monólogo, meio que terapêutico. Há tempos, há os que conversam com seus próprios botões, há os que conversam pelos cotovelos e os que respondem boa noite pro William Bonner e pra Fátima Bernardes. Há também os que conversam com seus cachorros e juram sinceramente a capacidade de traduzir os latidos. Minha melhor amiga, queixou-se um dia das impossibilidades do tempo e da amizade. Agora ela conversa demoradamente com seus livros de psicologia e comportamento. E eu fico a invejar-lhe por uma saída tão intelectual. Saída pálida de quem falhou.
E principalmente, há quase todos nós, que quando estamos aflitos e solitários, conversamos com Deus em orações e súplicas. E este sim, embora não o vejamos, temos a certeza que nos ouve prontamente.
o
o

SOB CONTROLE III

O



E por falar em nostalgia, e ainda falando do meu querido controle remoto, hoje esbarrei a mão e sem querer fui parar na MTV, e estranho... não havia nenhuma diva louca, seminua ou alcoolizada ou seminua e alcoolizada. Estava cantando um negro que até então eu não conhecia e agora não recordo o nome, depois vou ver, com uma voz belíssima e fazendo um som incrível. Fiquei tão feliz cá dentro e curti aquela música como o pessoal da platéia estava curtindo, assim como um momento muito especial. Acho que não só eu me apeguei ao controle. Ele também se apegou a mim. É desta forma que explico que na verdade não fui eu quem esbarrou nele, foi ele quem deliberadamente apontou o norte e quis dar-me esse presente em forma de música. Acredito que foi essa mesma música que desencadeou em mim uma nostalgia meio fujona. Tive uma vontade boba de estar em um shopping... qualquer um... Não, talvez o Park Shoping não fosse uma boa opção. Quem sabe o Terraço, que é tão mais tranquilo. Lá eu gostaria de assentar-me calmamente em um café que fica próximo à praça central, onde os pais levam as crianças pra brincar. Então, pediria um refrigerante tipo cola com limão e leria com imensa ternura alguma coisa do Neruda. Assim, me sentiria um pouco participante de um tempo e um mundo que há muito não tenho mais. E nessa minha visão, minha vida estaria de tal forma bem organizada, que eu não precisaria ficar aflita olhando para o relógio e correndo com tantas coisas ainda por fazer. E não me perdoaria sair sem comprar um Coldplay. Eu sei que é bem atual, mas é que me recorda uma saudade feliz de muita coisa que ainda não fiz, mas sonho muito em fazer.

Mas por fim, talvez tudo isso seja mesmo só reflexo de uma semana que foi pedreira: o Generson fez uma pequena cirurgia, o Dan fez sinusite, a Louise otite e a Camile rinite. Eu quase fiz enfermagem. Mas graças a Deus está tudo bem. Amém.



o

o

SOB CONTROLE II

O
O
Não, isso de se apegar a um controle remoto sobrevivente de um grave acidente, definitivamente não é loucura nem carência. Se não me engano, é assim mesmo que as pessoas normais agem. No decorrer da vida vão se apegando a coisas. Vão amando e se comprometendo a ponto de sacrificar tempo e espaço a fim de preservá-las. Sim, eu sei bem que pessoas são mais importantes que coisas. É que estou aqui me referindo ao cuidado, zelo e carinho que temos por alguns objetos que guardam na mais pura essência de ser inanimado, fraguimentos da nossa história, lembranças de pessoas queridas ou momentos importantes em nossas vidas. Guardo uma jarra de porcelana que lembra minha mãe e como ela gostava de enfeitar a casa. Comprei um cd do Balão Mágico de mil novecentos e antigamente por pura nostalgia, por me fazer lembrar de bons momentos da infância e até mesmo para copiar o gesto de minha mãe quando na época comprou um LP pra nós. Assim, vou compreendendo o que nunca havia entendido, porque algumas vovós tem na cristaleira louças que não permitem que sejam usadas nunca, jamais! Acho que é para não apagar preciosas lembranças quando forem lavadas. Dá também pra entender aquele vestido fora de moda, que se insiste em usar, porque o prazer a que se remete vale o desdém dos que não perdoam um erro de escolha. Ah, e não se pode deixar de falar também nos cheiros, nos perfumes e sua capacidade insuperável de despertar em instantes a mais remota das lembranças. E o que mais impressiona é que dependendo do cheiro, pode nos aguçar tanto a memória a ponto de lembrarmos com riqueza de detalhes, sentimentos a muito perdidos no tempo. Cheiro de boneca nova!! Meu Deus, que alegria! Como não ficar feliz e lembrar o quanto a vida é bela e generosa quando se sente um cheiro de boneca nova. Lembro-me de um natal que não havia a menor chance de ganhar presente. Mesmo muito criança eu já sabia. E é assim mesmo quando não se tem. Agente não tem, sabe e fica quieto, não dá chilique, não entra em depressão, a gente passa a compreender mais do que questionar. Mas incrível é que no dia de natal, minha mãe mandou a gente dá uma olhada em baixo da cama. De uma forma que eu nunca soube como foi, haviam pacotes de presentes para cada um dos seis filhos. Eram caminhõezinhos de plástico recheados com balinhas! Foi um dos momentos mais felizes da minha infância.
O
o
O

SOB CONTROLE

O
O
Observo da minha janela o mundo recortado em losâgulos. Em cada ângulo uma vida e uma avenida extensa a ser percorrida até a estação do metrô. Do segundo andar, vejo as pessoas cumprindo suas rotinas de vindas e idas. E é assim meia que voando em pensamentos que retorno à terra firme automaticamente chamando atenção do Daniel, que tenta mais uma vez jogar pela fresta da rede de proteção da janela, um par de meias. Sim, mais uma vez, porque de outra feita, foi pela mesma fresta que ele tão rapidamente conseguiu jogar o controle da TV, que não foi possível impedi-lo. Sem chances o controle despedaçou-se lá embaixo. Além da queda, ficou submerso em uma possa d´gua acumulada no piso térreo. Então o bichinho, falo assim, porque acho que ele, o controle, reagiu feito um ser vivente, pois assim que foi salvo do total afogamento e tendo sido montado parte por parte, tentou reagir e deu sinal de vida funcionando por alguns instantes. Mas o acidente fora grave e o trauma grande. Então nos primeiros dias pós acidente, nem adiantava pedir-lhe a gentileza de mudar de canal ou elevar e abaixar volume. Não, nada. Assim nos foi exigido o esforço incomum em nossos dias, de desgrudar as nádegas do sofá, caminhar em direção à TV e manualmente realizar as transições desejadas.
Mas como ia dizendo, foi assim, feito gente ferida que o controle foi reagindo aos poucos, bem quietinho na estante. Depois de alguns dias de convalescença, teve sua saúde, digo, circuitos plenamente recuperados, voltando à ativa.
Nossa! Que bom que ele sobreviveu! Bom pra ele que parece muito feliz executando suas funções como nunca. Sei disso, porque agora presto mais atenção. O amor também se dá pela convivência e pela experiência é que me vejo apegada a ele com carinho. Bom para o bolso, diz meu esposo. Bom pra nós que voltamos à rotina da preguiça. Digo nós, mas no fundo no fundo, sei que há a exceção da bunda, que não gostou nada da ressurreição do controle remoto. Sim, porque agora dificilmente terá a chance de fazer aquela caminhada refrescante entre o sofá e a estante.
Quanto as vidas e suas rotinas de idas e vindas... o que pode ser mais interessante e profundo quanto um menininho curioso ao seu modo, descobrindo o mundo?
O
O

SEI II

O
O

o que acho estranho é conhecer tão pouco da pessoa com quem mais convivo, essa que sou eu mesma. Então, vou listando alguma coisa até mesmo a fim de forçar um pouco a amizade, para quem sabe um dia possa conhecer-me de verdade:
o
O QUE SEI - LISTA Nº 01 - sei que, ora flutuo, ora afundo. Ora sou ponte, ora abismo. Ora uma bússola, outra a deriva. Ora me dou, ora cobro. Ora sou pouco, ora sobro. Ora colorida, outra monocromática. Ora bem humorada, em outra dramática. Ora dou o braço a torcer, outra torço o nariz. Ora sou triste, mas quase sempre sou feliz.
O
O QUE NÃO SEI - LISTA Nº 02 - não sei...O
O

DESAFORO

O
O
Acho que não tenho vocação pra brigar e esbravejar com as pessoas e dizer desaforos. Sim, porque me acontece vez ou outra de admirar quem não os leve pra casa. Mas definitivamente não sou dessas. Pois se acontece de eu dizer alguma crueldade que seja, torno-me eu mesma, minha maior acusadora perpétua.
De criança tenho um grande defeito de querer que tudo fique bem o tempo todo. Mas assim não seria humano. As pessoas erram, se estressam, contestam e perdem as estribeiras. Assim como também se acalmam, voltam a trás e pedem desculpas, ou não. Mas o fato é que mesmo adulta, sofro ainda muito desse tipo de conduta. Não é que eu seja fraca, muito menos covarde. Se tem algo que dou muito valor é encarar a realidade de frente. Nem tão pouco que seja o caso de ser santa ou boba. Sim, porque já desci dos tamancos e fui ladeira abaixo. Mas é que sempre sinto que não vale a pena o descaso, só pra ostentar o sorriso arrogante dos bons de boca, dos língua afiada.
Isso de dar resposta atravessada, de bater-boca e ficar ou fazer alguém magoado, a imagem que me vem é de devastação, cenário típico da guerra, onde vencer é sinônimo de derrotar, e isso implica em comemorar os feridos que se deixa pelo caminho.
Mas o meu anjo bom que vence quase todos os meus embates, lembra-me como é reconfortante não atear fogo ao pavio só por orgulho, disputa ou contenda e que não vale a pena ferir, se é com humildade que viemos ao mundo, e da mesma forma um dia teremos que nos despedir.
O
O

SEI

o
o
Vivo a escrever coisas do meu umbigo, coisas simples, coisas minhas, coisas tortas... embora algumas vezes lançando o olhar além da minha órbita, diria que, o que escrevo toca outros mundos, outros caminhos, diferentes rotas.
Sei, aqui e ali tropeço, sei que não há genialidade nos meus versos, são apenas suspiros impressos. Sim, eu sei que transgrido e peco, mas essa minha escrita capenga, equilibra os meus temas e por vezes lança luz sobre alguns dilemas.
Escrevendo sigo me conhecendo e reconhecendo a cada linha, cada parágrafo, cada página. Então de maneira intensa e ávida, sinto e sei de forma cada vez mais clara, que tenho impresso no meu ser algo a me conduzir feito uma dança. Talvez essa ânsia secular, que se agarra a qualquer fio condutor de esperança.
o
o

HORA DE DORMIR

o
o
As crianças borbulhavam horas após horas, nesta festa infantil que dura a infância inteira, nesse circo lúdico que ri de qualquer besteira. Nessa urgência de vida, como se a eras esperassem pelas brincadeiras. Colocadas na cama devidamente banhadas, alimentadas, beijadas, encantadas e embaladas por contos e cantos, ainda assim resistiam bravamente à urgência do sono. Foi necessário contê-las. Feito assim um laço de abraço e no seu calor sussurrar ao pé do ouvido, avisando aos pequeninos que o dia fora longo e que aquele corpinho precisava também de descanso. Precisava dormir. Dormir e crescer.
Mas no anseio infantil de viver e correr e saber, nem sequer perceberam que à horas o sr. Sono batia na janelinhas das pestanas anunciando sua chegada, que ele tinha hora marcada e que o mundo dos sonhos também precisava delas para sobreviver. Então bastou um recostar de cabeças ao travesseiro para a mágica acontecer. Atendendo ao seu chamado, dormiram um soninho tão puro e profundo de fazer silenciar o mundo... esse mundo.
o
o

VENTANIA

O
O

Esta noite, um vento repentino, meio fora de rota entrou sem bater na porta e agitou meu quarto inteiro. Cantarolou ao pé do meu ouvido, gelou meu travesseiro, despenteou meus cabelos, despertou móveis e objetos queridos, engilhou meu vestido, umedeceu meu par de sapatos e saiu com forte zunido fazendo a curva no meu umbigo. E saiu tão ligeiro, tão ligeiro...que não tive tempo...
Tempo de lhe dizer que a sua visita me acordou de um pesadelo. Que assanhados meus cabelos, curtiram o embaraço e brincaram de abraços. Guarda-roupas, escrivaninha, penteadeira, livros e bijouterias, sentiram-se acariciados. Meu travesseiro gelado, só pediu um abraço apertado. Meu vestido engilhado, estava mesmo acalorado e sentiu-se bem melhor, obrigado. Meus sapatos umedecidos, soltaram uns poucos espirros, mas com isso espanou a poeira que dormia tranquila e desavisada na sua fivela cromada. E aquela curva no umbigo? Ah! fez cosquinha achei graça! Foi manobra de dar inveja a esquadrilha da fumaça!
O
ps:
ah! e não pensem que a poeirinha virou uma sem-teto. Pegou carona com vento e voou sorrateira pra fixar moradia em uma fresta entre os livros e penteadeira.
O
O

O EDIFÍCIO

O
O
Assim como a minha plantinha que se encontra no vaso sobre a mesa da sala, o edifício é também uma planta e precisa ser regado para crescer. Acho que ele é de uma espécie gigante, bem exagerada, mas que nasce como toda planta grande ou pequena, de uma planta apenas. E como tal, teve que ser plantado e ser cuidado para daí crescer e se tornar essa árvore de concreto que brotou diante da minha janela, diante dos meus olhos impressionados a cada manhã. De tão alto, esse prédio já passou da altura dos olhos do pé de manga, do pé de goiaba, da laranjeira e dos ipês amarelos do Niemar. Agora todos os pés disso ou daquilo, têm de erguer bem o seu olhar pra conseguir ver o topo desse pé de apartamentos. E é lá nesse topo que agora já se vê um vaga-lume de estranha luz vermelha, - comentam as árvores cismadas. Mas elas sabem, assim ouviram dizer, que esse bichinho pontual, mesmo nas noites mais frias e escuras, se dedica a missão de avisar aos aviões que naquela árvore desengonçada de galhos simétricos e folhas duras reluzentes, não pousam apenas os pássaros, mas repousa um punhado de gente, muita gente.
O
O

INERCIA

o
o
Vi um olhar tão triste, vestido de trapos, recoberto por tempo e poeira, que me cortou por dentro e fundo. E era tão cheio de dor e indiferença que a minha presença, passou como os tantos que passavam e não fazia diferença. Era tanto abandono, que lhe pesava sobre os ombros já encurvados. Era tanto abandono transitando ao seu redor, que também se abandonou e pareceu-me que foi abandonando aqui e ali algum sorriso, esperança, qualquer sonho de criança ou qualquer ilusão de gente crescida. E sentada ali no meio fio, coberta pelo infinito e cercada por seus limites e pela limitação da multidão que a cercava, onde eu estava... passiva assistia a marcha dos fortes. Eu não tive coragem de dizer palavra, de entregar sorriso, de agir...de agir... eu apenas olhei, sofri e parti. Então eu quis colocar no papel, aquele olhar caído, aquele semblante perdido e encontrado entre os farrapos do seu vestido. Mas será que tenho esse direito, de roubar daquela tristeza imensa algumas palavras rasas, sem a devida profundidade, sem conhecimento de causa, sem envolvimento de almas... sem nada... sem nada de mim ter doado? Será que é certo do sofrimento alheio tecer um texto, buscar pretexto de inspiração? Senti vergonha, por ser mais uma no mundo a só querer tirar proveito daquela vida, que nada parecia ter, além daquele olhar perdido que até doía. Senti vergonha de mim mais uma vez e rasguei o poema. Rasquei o poema e saí de cena. Saí de cena pra depois voltar e pensar, e pensar se tem alguma valia imprimir a dor com a tinta fria e ineficaz, se alguma palavra escrita pode perpetuar na mente um drama tão comum e desumano para quem sabe um dia, diante da mesma cena, não dar nem sequer um passo adiante sem antes reagir e agir, e fazer o que for possível, e não deixar que o espanto faça negar um sorriso, e ver que por mais profundo que seja o poço do abandono, um pequeno gesto carregue consigo o poder de amenizar a penúnria e quem sabe derrame um pouco de esperança sobre a tristeza diminuindo a distância entre o fundo, o profundo e a superfície. Superficial, talvez. Mas com certeza o fim da inércia e o início de uma grande tarefa.
o
o
o

VALE

o
o
do pouco que vivemos e do muito que aprendemos amor, hoje eu sei... para quem tanto caminhou, vale mais uma légua. Pra quem riu e chorou, vale mais a trégua. A despedida é sempre o caminho mais fácil, desistir é porta sempre aberta. Juntar as peças leva uma vida, caminho mais duro que a despedida. E sabe, amor... tem tanto amor nesse meu peito, tem tanto amor em nosso leito de vida e ternura e há tanta ternura em teu olhar que me alcança por dentro e cura toda sombra banal da amargura. Por isso vale cada passo, cada légua, cada gargalhada e também a lágrima. Vale a cumplicidade da entrega, vale a tentativa diária de encaixar as peças e a decisão renovada na essência de desistir de qualquer desistência.
o
o

ANDANÇAS

O
o
o
hoje visitei antigos pensamentos
velhos hábitos
poemas suspensos

hoje revirei meus armários
consultei meu avesso
O
O
celebrei pequenas vitórias
O
O
em silêncioo
O
o

ABRIGO

o
o
o
o
Às vezes preciso me esconder em mim. É como um abrigo antiaéreo dos gestos rudes do mundo. Penso que promovo o bem, penso que talvez possa fazer alguém sorrir... mas vou e volto... há tantos gestos maus. Nem sempre estou pronta pra me defender. Então me escondo. Aí me chamo assim, no diminutivo por carinho e me digo o quanto um gesto pode fazer diferença. Mas quase sempre me atrapalho... entre mãos, pernas, joelhos, cotovelos e intenções. Gesticulo sem coordenação. Tenho em mim essa busca por equilíbrio... São nestas horas que preciso me dar colo, afagar meus cabelos crespos e dizer que tudo vai dar certo.
o
o
o
o

LAÇOS

O
O
O

Ah! esses nós nos meus cabelos...
O
esse embaraço...
O
é só a saudade dos fios
O
brincando de abraços
O
o
o
O
O

INVERNO

O

O
quando ele me lançava aquele olhar de iceberg, é que eu sentia a solidão dos polos, uma solidão de fim de mundo. E era lá da minha distância e desamparo desse olhar, que eu tentava entender os seus motivos e tentava encurtar as distâncias tocando sua mão. Mas foi mirando-o de dentro pra fora, foi encarando o inverno em seu olhar, quando ele não pôde mais perde-se de mim ou afastar-se esquivo, que eu vi, o que suas mãos imprecisas também não puderam dizer. Que a insegurança desagasalhou seu amor, então os seus olhos já não podiam mentir.

O

O

BOOM

O
O
hoje eu quero, e quero muito. Para o meu cansaço, um mar de almofadas. Para qualquer traço de amargura, uma borracha. Para os meus medos, algum enfretamento. Para o meu amor, todo o encantamento. Para algumas expectativas frustradas, tentar mais uma vez. Para minha poesia de sobras, ao menos uma por mês. Para tudo que oprime, as chaves dessas correntes e para os meus limites...quero pólvora e dinamite.
O
O

POSSÍVEL

O
o
ergo-me do cansaço

e atravesso

o tempo

visto-me de coragem

e sol

arranco de dentro

o medo

e acaricio o futuro

com a ponta dos dedos

o
o

VIAS III

O
O

Poeminhas amassados pelo chão, sinalizam um caminho sem volta. Em cada pedaço de mim um sentido se aguça e revolta. Reviro, tento, margeando inícios. Mas não me arrependo, vou seguindo ao sabor do vento, em silenciosa busca, onde me reinvento.

O
O

VIAS II

O
O O
Persigo um verso, pra que ele me delate, persigo um verso como ouro de alto quilate. Persigo um verso, pra que ele me encontre. Esse verso que vive aqui dentro, brincando de esconde-esconde.

O
O

ABRIGO

O

Havia algo de tão especial
e banal
naquele vão de saudades
Um veio de lembranças

jorrando
memória à dentro
resgatando sonhos
estancando perdas


Um apelo de sensação

libertária
ruir de escudos
papelão e aço
um abandono seguro
onde me refaço

Então vi

Fui abrigo
Ombros e passos
O

EXPEDIÇÃO

o
o
Um pequeno graveto seco estalou sob meus pés cansados. Um grilo entoou uma canção antiga, permeou-me intenso o passado. Quando as noites eram brincadeiras de roda e os dias incansáveis expedições ao quintal. Cantinhos misteriosos, imensidão inexplorada com sua fauna minúscula a ser desvendada. Centopéias, cem perninhas sem tropeços, libélulas acrobatas, besouros encouraçados, joaninhas, caracóis e o louva-deus em seu terno camuflado. Das cigarras vinha o fundo musical do meu vasto mundo lúdico, colorido pelas roupas estendidas no varal.
Quando de mim dei conta, continuei minha caminhada. Mas já não tinha os mesmos passos cansados.
O
O

MENINICE

o
o
Quando eu era criança tinha uma estrela lá no céu que era só minha. Ela tinha nome e tudo. Eu por sua causa, na minha meninice, apreciava o escuro da noite, pois, realçava a sua beleza. Conversávamos confidentes. Ela falava brilhando mais ou menos. Às vezes com um piscar aceno. E isto me bastava. Me ouvia e sorria cintilante. Queria tanto crescer pra ficar mais próxima a ela. Mas crescer me exigiu tanto... Desaprendi as coisas simples. Hoje não consigo ao menos encontrá-la.
o
o

AMADO

o
o
O coro harmonioso dos teus passos
anuncia tua magnífica aparição
um espetáculo cotidiano desejado

Como um sol adentras
a aquecer a casa úmida
o
então me ergues

Pois curvada de ausência te esperava
o
o

AMIZADE

O
O
Hoje vi umas flores murchas penduradas na sacada de um prédio. Pareceu-me um suicídio em andamento. Corri pra acudir. Mas elas não pularam. Fiquei aliviada. Fiquei intrigada... pois elas ficaram ali, suspensas.... com um olhar tão seco, que o choro era pra dentro. Eu sofri por elas, sem saber o motivo. Enquanto eu gritava silêncios por socorro, vi algo cortante. Em quase todas as sacadas haviam essas plantinhas dependuradas, caladas. Só aí me dei conta. Me vi uma delas. Essas flores desidratadas, abandonadas, são nossas amizades murchando. Amizade é assim, como a muito se diz. Uma plantinha que nós somos e que cultivamos. É preciso apesar da correria do dia a dia, apreciar e cuidar com alegria.
Esse Corre-Corre é apenas um jardineiro preguiçoso que fica desaconselhando o dia inteiro:
- Substitua essas flores de canteiro, pelas de plástico, é muito mais prático!
Ah! Jardineiro insensível! Não quer ter o trabalho do zelo. Não quer adubar com palavras carinho, afagar tirando os matinhos, regar com ouvidos atentos e se necessário apoiar com a varetinha do ombro amigo na hora da ventania.
Ah correria árida preguiçosa! Deixa vai! Deixa eu cuidar da minha plantinha! E não reclame se as flores de plástico não lhe abraçam com perfumes.
E você... vai lá, vai. As plantinhas da sacada, ali penduradas podem ser sua amizades secando... secando...
O
O

TEMPO

O
O

O tempo é esse menininho sapeca desenhando garatuja na parede do meu rosto.

- Ah! menino, peraí! que eu vou chamar o seu Pitangui.
O
O

CAMINHOS

o
o
........Quem ama recria
Encontra na alma vias
...........Caminhos leves
..........Esquinas vazias
O
.......................e segue
o
o

ENTRELINHAS II

O
O
é o meu melhor amigo. Sabe... ele tem nesse jeito de furacão, muitas brisas acumuladas. E na sua voz de trovão, as saudades do sereno retornando a terra. Sentiu aquele cheiro bom? É o seu hálito de primavera. Ah! e quando ele me disse não, foi pra eu me lembrar que amar é cuidar... e cuidar é coisa muito séria.
O
O

ESSÊNCIA

O
O

No espelho embaçado de paixão
Tudo era pleno e perfeito
quando o calor mais intenso abrandou
escorreu líquida a urgência
restou todo nitidez o amor
refletindo maior essência
ainda que expostos rugas e defeitos
O
O

ENTRELINHAS

o
o
e sempre que ele saía retornava me trazendo um sonho de panificadora. Eu reclamava, dizia que tava engordando ou que o sonho era dormido. Ele ficava triste e dizia que não sabia comprar outra coisa. Até que entendi... sonho não engorda. São os sonhos que nos nutrem. E tinha mesmo que ser dormido... que falha a minha, pois foi ao amanhecer que compartilhamos os nossos melhores planos. Entendi principalmente, que aquele gesto quotidiano, era só o seu jeito tímido de repetir eu te amo... eu te amo....eu te amo....0
0

ALÉM

o
o
Quando eu enxergar a ternura da pedra
e a luz da sombra que me cobre
Quando aprender a tratar terra árida
Pode ser que a palavra que me falta brote
o
o
o

MIMOS

o
0
Hoje fiz um carinho no meu calcanhar. Eu que o trato de forma tão funcional. A ele ligo chão estabilidade aspereza. Não costumo tocá-lo. O julgo um tanto quanto impuro. Contaminado. Mas hoje em um dia nublado, ouvindo suaves acordes teclados, deitei-me em posição fetal, braços entre pernas. Entrega. Minhas mãos tácteis sensíveis, percebendo a carência, tocaram meu calcanhar esquecido como um velho amigo. E ele dissipava desejos contidos de afagos e mimos. Quando dei por mim, o tocava sem preconceitos, deslizava palma e dedos em ternuras e doação. E percebi quando ele empolgado e lisonjeiro exclamou ao nobre cérebro: Eita! Como um cafuné é bom, heim companheiro!
O
O

NOITE

0
0
A noite com seu colo imenso
me abraça materna
a preparar-me para o amanhã
Canta-me antigos silêncios
me faz o afago de um sonho
e sempre deixa a luz dos raios de sol
acesa ao se ausentar
0
0

EQUILÍBRIO

o
O
Tudo que domina
Mina o centro
Desloca o eixo
E lança a esmo
“Mas não se prende o vento
entre os dedos”
dos meus abismos
me ergo
0
O
O

BOM DIA

o
o
Sentada à mesa da refeição matinal, grata, retiro com delicadeza e destreza as sementes pequeninas, negras, resguardadas na liquidez embrionária madura, para não lhe ferir a nobre polpa, para que nada se perca do sabor e maciez do meu mamão papaia.
Alaranjada fruta no tom saúde, saúda o meu dia, folha em branco disponível. Na verdade conto com ela com muita fibra, espero que anti oxide naturalmente minha história e ajude na faxina das sobras. Em seu teor adocicado, apetência e suculência me convidam. Vou o extraindo. Acrescentando-me. Absorta o absorvo, em colheradas sobremesa.
Iguaria acessível da multiforme natureza, que com generosidade me serve e sacia na minha manhã vazia, o paladar da boca prateada, salivada e presenteada com uma porção de bênção em forma de flor e fruta. Por um momento, apenas o saboreio... enterneço e esqueço, da vida com sua lida bruta e novamente agradeço pelo dia, pela vida, pela alegria, pelo alimento e principalmente, pelo meu mamão papaia saboroso, já sem caroços.
o
o

RELÍQUIAS

o
O
Colhi alguns raios de sol e coloquei na caixa adornada das minhas coisas especiais. Pra quando o dia ficar nublado e trouxer aquele medo úmido, um cheiro de armário, eu te presentear com essa porção do sol que guardei, só pra ver teu rosto iluminado e aquecer teu coração com carinho. Aí vou te mostrar...na minha caixa tem também aquele sorriso largo que me entregou quando te conheci, aquele verso de improviso, o agradável tom dos teus risos... Guardei as vezes em que teu ombro foi meu abrigo, o gosto dos seus cuidados, o teu zelo. Apurei o perfume dos teus ideais, o teu cheiro. Pétalas brancas com as tuas verdades aspergi. Colhi com leveza, o encantamento e a cor daquele dia inefável, em que passamos a coexistir.
o
0

RETORNO

O
o
Hoje um lençol cinza forrou o céu de Brasília. Já não era sem tempo. Enfrentamos à pouco os dias mais quentes dos últimos quarenta e oito anos. Sem praia faltou ar condicionado pra refrescar o cerrado. Até as águas foram se refrescar nas nuvens. Agora o céu tá tumultuado. Vai despejar essas águas fugitivas no Lago.
o
o

BREVIDADE

o
0
Vou me enveredar.na brevidade do agora, vou transitar eternidades que habitam os gestos mais simples. Experiência fugaz é a existência, urge amor sem conta-gotas. Um ouvido atento.é torneira jorrando que o árido coração sorve ávido, brota a alma e dilata poros em flor.
O
O0

COMPOSTO

o
O
Porções de mim
Mármore
Marfim

Outras
Apelo
Calma contemplativa
Dinamitar de espelhos

o
0

PLANTANDO VERSOS (meu ócio criativo)

O
O
o
Planto hoje um verso, rego o destino. Crendo no futuro, preencho abismos. Germino no seco, converto o ócio em instrumentos, versos e questionamentos que vão além das teias, nas correntes climáticas da alma, errática. No mínimo ao vento lançados reciclam-se enigmáticos.
o
o

VAZIO

0 o
o

então será que nesse vazio solene
o silêncio se agigante denso
e esparrame nas páginas em branco
gravando seu eco

solidão
o
o

IMUNIDADE

o
O
Pra trilhar com coragem
Vou jogar fora as cascas
Vou ficar exposta
Pra ficar imune
dona de mim
e dos meus costumes
O
0

PRODUTO

O
O

Coloquei as horas ao meu serviço e voltei eufórica a vida. Então disse... chega de artifícios, chega de minerar minutos, correr viadutos, conter terremotos, sorver maremotos em busca de recursos. Veredas em precipício onde me perdi. Visão turva, não vi. Eu não vi o mar, o fim da tarde, os amigos. Não procurei o inimigo, assim como aprendi. Deixei passar o ócio, a conversa fora, a vida, o agora. Fui ação, atividade, fui vício, fui arte. Fui nada. Não fiz parte. Desejei as horas ao meu serviço, mas o ritmo da solidão me neutralizou.

O
O

ROTAS

o
o
Tenho mil possibilidades

E um vazio me acomete
desumano
calculista
Traçando rotas invisíveis
De planos vãos e findáveis
No rio turvo
da realidade
o
o

OBSERVATÓRIO

O
O

Ah! Esse vento impetuoso... apressado aonde ele vai? Poder que sustenta e aniquila, é ele quem me põe medo e o mesmo que me fascina. Ah! Esse mar em tormenta ... agitado aonde ele vai? dono de canções e de sinas, é ele quem me põe medo e o mesmo que me fascina. Ah! O homem... o homem... apressado, aonde ele vai?
o
O
O

TERAPIA

O
O

Minha causa é nobre, por isso é não me dobro. Os méritos próprios, por isso não me troco. "Então não tema, esse é o meu lema" : Felicidade não tem contra indicação. Sorrir é seguro e faz ruir muros.
O
O

VERSOS BÁRBAROS

0
..0...










A querida poeta Adriana Costa, dedicou-me este selo em seu
blog Versos Bárbaros, fiquei muito honrada e aqui faço
notório meus agradecimentos. Agora, gostaria também de
indicar blogs que amo de paixão:

1. Fernando Rozano - http://fernandorozano.blogspot.com/
2. Cosmunicando - http://cosmunicando.blogspot.com/
3. E La Nave Va - http://elanavev.blogspot.com/
4. Memento Mori - http://www.mementomori.com.br/
5. Casa de Paragens - http://casadeparagens.blogspot.com/
o
o

FÉ

o
o
O
Na base das convicções
uma ousadia
crer que a cada dia
o novo viria
com o ímpeto dos ventos
e uma porção de grandeza
para dividir como o pão sobre a mesa
colhidos dos velhos dias
bocados de sabedoria e gentilezao
o
O
O
o

MAIS QUE IDADE

o
0
Enquanto o medo algema a alma em ferrolhos de nervos, grilhões do acaso, cativeiros do passado; em destemida fragilidade meu ser arremesso, despedaço o elo do temor e recomeço em franca liberdade. Viva a maturidade!
o
o

ANIMALESCA

O
O
Já escrevi como quem berra, já escrevi como quem late e um pouquinho como quem mia. Agora desejo escrever como quem pia ... piu! piu! ... E quem um dia me dera, ver-me passarinho, em uma tarde singela, cantarolando à sua janela.
O
O

PRESENÇA

O
O
Foi só silêncio
Esta noite vaga
Estranhamente povoada
Por adormecimentos primeiros


Onde alheia
A tudo e a nada
Perpetuavam lembranças

e aconchegos

Então vi
nitidamente
As eras escondidas
Entre sorrisos e vestidos
Avessos
estavam lá, desde sempre
Onde a velada inconsciência
Silenciosamente
Impera
Sem resistência
O
0



RESISTÊNCIA

O
O

Absorvo-me em exigências quase subumanas dos nossos dias. Desintegro-me. Pulverizo membros. Exponencio-me. Deforma-me a carne, película tênue, transitória, indiferente a ditadura contemporânea. Dias prováveis de impróprias convergências, inóspitas demandas, áridas vivências. Expectadora, esmurro virtual a tela ao fluxo da corrente trama: tecer escolhas próprias ou em anestésica máquina supersônica, atender as exigências quotidianas da convulsiva vida urbana.
O
O

LIMITE

O

Em um quintal árido, vejo a estiagem da esperança. Brincam crianças, dança o vento, revirando folhas secas. Espiam a vida, alheias em brincadeiras, indiferentes ao próprio sofrimento, infância em abandono, sem pátria ou bandeira. Um fio entre o futuro e o limite do muro.
O

O

INQUIETAÇÃO

o
o
Em meu finito espaço
Verto inquietações
Espalmo o tempo
Com palavras subjetivadas
Venço o verso

No universo vago

Lanço projéteis
Abro clareiras
Em busca do todo
Tateando estilhaços
Onde as respostas fogem
oooo incógnitas
Entre quatro paredes de aço.
o
o

EFEITO AMOR

o
o
Quando meu amor se faz dia
ooo Irradia
Se em noite transfigura
ooo Ternura
Se o meu amor aumenta
ooo Flores na varanda
ooo Jantar à luz de velas
Ao que meu amor se abala
Maior amor à tona
ooo Revela
Quando meu amor transborda
ooo Jorra
ooo Fecunda
ooo Terras férteis
ooo torna.

0

CELEBRAÇÃO

O
O
Eu saberei de ti, meu amor, por todos os dias, conquistar-te-ei diariamente, vou guardar o teu cheiro e gerar tua semente. Buscarei de continuo a amplidão da sabedoria, para que não me falte palavras quando nas longas tardes descortinarmos a existência. E recostada em teus braços entre livros e felicidades apreciar teus nobres pensamentos.
Vou cuidar de você, vou ser sol e mar. Vou ser teu refúgio, tua rica morada. Vou levar ao teu encontro o cheiro da terra molhada, para contigo celebrar o renovo da vida.
Para que após longos dias ao teu lado vividos, no regozijo da tua presença, no desfrutar da tua essência, eu possa olhar-te sereno e gentil, tocar teus cabelos morenos e sossegar no teu fôlego. Deitar-me ao teu lado e rir-me de uma vida farta de amor, regada ao teu doce sabor.
Assim quero selar contigo, a mais bela das histórias e fazer novo o que tempo faz velho. Ser para tantos inspiração e para outros conselho.
Vem meu amado, em quem minha alma se alegra. Celebra sem reservas, pois sem vacilar nos defendemos. Minha foi tua causa, minha guerra foi tua lida. Assim fomos feitos fortes, subimos montanhas descemos abismos, vencemos desníveis e empecilhos.
Faz de mim a cada dia, teu campo de flores, colhe aromas, sacia-te em sabores. Que seja para sempre assim, terno e profundo, divino e meramente humano, delicado e valente, pois a ti meu amor, conquistarei diariamente.
O
O

CRISE

0
Apresentou-se diante de mim um Fogo intenso que bradava ameaças de grande incêndio e devastação, a tal ponto, de arrasar com minha pequena vinha. E nos seus olhos que ardiam desolações, crepitava a violência, avaro e ira. Eu temi e pranteei. Temi pela lavoura, pelos que dela sobreviviam e pela esperança semeada.

Porém, levantei-me do terror e do pranto que me murchou o olhar da colheita por um instante. E vislumbrei no horizonte as horas da esperança, a guerra contra as pragas, o suor, os calos encravados na palma da mão e a ânsia da espera quase materna.

Então, firmou-se meu olhar. Cerrei os punhos, sem violência, mas com a resignação de quem protege sua cria. E disse: Fogo, por que desejas devastar minha vinha? Em que te apraz à destruição obstinada se ao final de teu intento, deixa-me as cinzas da tua própria extinção? Por entre as gerações fez-se notório teu nome, pois te ti o aquecer, moldar e forjar. De ti a luz do astro que dormita na escuridão. Não, não te consumas em ruínas e danos, mas faze perpétuas tuas chamas. Desfaça o furor das labaredas impetuosas e momentânea. Goza da perenidade de ser fonte no esplendor do lume das eras.

Lancei assim minhas palavras sobre as chamas. E elas caiam como respingos tímidos que ressoavam mais intensos a cada momento. Até que transbordaram. Até que conteve o Fogo, e a ira e a desolação. E quando restava pequena e tremula chama, peguei minha lamparina, a guarneci de azeite em abundância, e brandamente transferi o Fogo ao pavio.
E não mais houve ameaças. Verdejou e cresceu a minha vinha. O povo prosperou e gozou dos seus frutos e o fogo dominado cozeu esses frutos.

0

MINHA VIDINHA I

o
o
Bravo! Por um viela
Lá vinha Vidinha se esvaindo
Bravo! e Vidinha se arrastando
Bravíssimo! Vidinha já desvairando...
Ali parou, se recompôs
Colocou seu melhor sorriso
Um tapinha na face,
Saúde,
Pose elegante, virtude
Então
Cumprimentou seus amigos
Como se nada,
absolutamente nada
Houvesse acontecido.
o
o

PLANO DIÁRIO

O
O
Quando deita a madrugada e o primeiro sol do planalto bate à janela, traz consigo a chamada da alvorada a mais uma lida diária sob o céu de Brasília. Nós aqui das satélites, a caminho do Plano Piloto: meteoros de concreto, decretos e asfalto, conchavos, acessos e vias, estrutural, eixo monumental, congresso, esplanada e rodoviária.
Entre engarrafamentos e buzinas, baixa umidade, pardais, flanelinhas: a beleza singela dos canteiros. Com suas flores do cerrado, forrando balões, tesourinhas, entre-quadras. Harmonia de cores, aromas e formas a desejar-nos bom dia... em mais uma longa jornada.

O
O

BECO

o
o

Tenho que escrever

às pressas

Pois é assim que sobrevive
minha poesia

de sobras e de brechas
0
0

PRESSÕES

o
o
Tenho minhas depressões
ooooo em segredo
Diluo frustrações
Amorteço pressões
ooooo e vivo
Venço diariamente
As agressões do meio
ooooo e da mente
Sem devaneios
Duelo com a realidade
Embargo sentenças
E sigo
ooooo esperança.
o
o

COTIDI-AMO

O
O

Cotidianamente, corre-corre, pique-pega. Manhã escola, tarde tarefas, balé, natação. Noite saudades, beijos, abraços, dever de casa e cansaço. Pra dormir: histórias pra sonhar , oração e bençãos. Depois, sono profundo, de quem é hoje da minha vida o fruto e a semente do futuro.
O
O

SEU TOM

O
O
O meu amor veio tarde
Trouxe questões entre abertas
Trouxe bagagem de ansiedades
Música nas veias,
E uma guitarra vermelha

Trouxe o tom do que viria
Dúvidas abissais
Ventanias
ooooooooo Juventude
Renúncias verdadeiras


Arrancou-me o escudo
Plantou-me uma certeza

Objetivos
Adjetivos
ooooooo Uma aliança
Porto amigo,
E um lugar incomum
Antes dois
Agora um


O
O

SOBERANA MENTE

O

Enquanto se faz o circo e as barrigas roncam vazias, a zombaria corre solta. A sobrevivência em luta severa, deixa em profunda espera a luz tardia da libertação. Quando a razão ganhar voz e isso há de ser breve, e se erguer a nação à angústia do excluído e o clamor do aflito, será nossa bandeira o cessar de conflitos. Então bradará uma geração: - Chega de circo e pão! Eu quero minha nação em busca de muito mais, um povo que se agiganta em consciente soberania. Exposta a intolerante tirania escrever de próprio punho um novo rumo pra sua história e fazer valer com sucesso cicatrizado em memória: -“ Ordem e Progresso."

O

O

DOR

o
o
O que percebo
O que sinto
Minto omito invento
Faço que sim
Isento-me.
o
o

DIA A DIA

o
o
Por um chuveiro
Urbano
Desce cristalina
Água
Limpa a derme
Extrai o verme
E escorre
Preciosa e suja
Pelo ralo
o
o

LINHAS

o

o

Escrevo não porque sou
ou tenha
Mas porque me falta

o

e sinto
0

0

SAUDADE

o
o

Como esquecer
Se é presente a ausência
E o silêncio grita
oOoo Existência
.

o
o

BELO AMOR

O
O

Penso assim do amor... que ele seja eterno e permaneça sempre terno. Que seja belo e atenda da alma os anelos. Deve ser cuidado e ser tocado, acariciado e mimado, como criança de colo. E sem reservas ser apaixonado, declarado e notório, sendo tranqüilo e suave como na tela a paisagem. Que seja bem nutrido para florescer e ainda que leve tempo, seja renovado, seiva e semente, para que se faça belo hoje e para sempre.
O
O

MONÓLOGO COM ESPELHO ( hahah!! Não é pra levar a sério não, tá)

o
o
o
Oh! Espelho cruel! São a mim tuas respostas mais amargas que o fel. De tua presença inspetora nem ao menos um alento, nem sequer uma ventura, pois gritas a todos os cômodos meus centímetros de gordura. Se das adiposidades, algum peso me subtrai, nem assim tu me animas. Com teu ar tão desdenhoso: - eras gorda, agora sois flácida, tal qual um criado insolente, indiferente à minha desgraça.
Em postura cínica e estática, mais me infliges sofrimento, pois causas em mim toda fúria dadas tuas sentenças tão duras. Eu hora triste, hora cansada, entrego-me a derrota indumetária, visto uma leg permissiva a gordas, flácidas, baixas, cumpridas. A desenhar-me as celulites por panturrilhas, coxas e bunda, ignorando tão vil humanidade, indiferente aos teus cruéis palpites.
Mas se a sensatez me visita, vejo você tão inerte, então lembro-me que és apenas uma peça sem vida, lembrança ou memória. És apenas um acusador deselegante a qualquer hora.
Uma peça vil, disposta a refletir a quem quer que se aproxime, pois não tens vida própria. És apenas refletor de vitrines. Sim, neste cômico drama, sou eu quem te apavora, pois tenho vida pulsante, sou eu, quem escrevo minha história.


TRÊS

Agora são três.
São três os meus amores,
Três caminhos,
Três mundos,
São três cores.

Daniel, Camille, Louise
E quando adentro a porta
É só o que me importa

Desafio presente
Projetos futuros
Sujeira no chão
Rabiscos no muro

Band-aid, pomada, carinho,
Colo e computador.
São três lições,
Três refeições,
Mastigando de “vagarinho”.

(simone gois)

NACIONALISMO DE GAVETA

Meu nacionalismo é de gaveta.
Mas sai pras temporadas.
Ele pula carnaval
Vai à copa do mundo
E vota em urna eletrônica
Em apenas 30 segundos

Meu nacionalismo
Só não tem tempo
Para se engajar na causa da escola
Ignora a arma engatilhada
Das salas vazias
E as mazelas e martírios daqueles
Que por oito ou até doze horas/dia
Ensinam aos nossos jovens
O sentido da cidadania

Meu nacionalismo é político
No mais baixo sentido
Sem causa ou ideologia
Político institucional
E como tal,
Disputa via manchetes de jornal
O ensino diário da sociedade
De tal forma
Ao que a escola forma
Tal instituição deforma

Meu nacionalismo de carnaval
Não denuncia o caos do hospital
Aqueles da rede pública
Rede de interesses
Infestada de descaso
De vias burocráticas
E corredores lotados

O meu nacionalismo
É ardente
Nos campeonatos locais,
Regionais, internacionais
E aos ais dos hospitais
Morte súbita nas filas,
E até o final da partida
São mais noventa minutos,
E mais centenas de vidas
Mais noventa, mais noventa...

Meu nacionalismo é burguês
Pinta a cara e desfila nas ruas
Participa de passeatas
Faz donativos
Inscreve-se em ONG´s
E volta pra casa
Com a sensação do dever cumprido

Meu nacionalismo é manso
Pois tem também o rabo preso
Tem dois pesos na balança
Pois o tio do tio do irmão
Da minha madrinha
Também tem cargo de confiança

Meu nacionalismo é covarde,
Não tem compromisso, é omisso
Não é militante, se cala
Não discute, consente
Aceita migalhas pré-estabelecidas
Não determina,
Não se indigna

Por isto em nota, procuro respostas
Para perguntas de base e fundamento

Como amar a pátria?
Cadê nossa identidade?
Onde estão nossos símbolos?
Como asceder coesão e desenvolvimento?
Quem são nossos representantes eleitos?
Quem acompanhou seus feitos?
Quem cobrou seu direito?

Disto posto,
Ainda a questão
Como torna-se nação?
Para deixar de ser povo
Cada um por si
Deus por todos
E fazer meu nacionalismo ser capaz
De defender os direitos primários
De investir no operário
De dar voz aos oprimidos
De batalhar suas causas
E arrancá-los do conformismo
Semeando a esperança
Promover a cidadania
Para colher uma sociedade
Mais justa, plena e sadia
Com a semeadura do entendimento
Na plantação do desenvovimento
No resguardo da soberania

(simone gois)

INVERSO VALOR

Seria o justo o tolo
E o crápula honesto ?
Projetos e esforços
Menor que a lei da aposta?

Seria tristeza cooperar
E à vida do próximo dar o aval?
O humilde é Zé
Incapaz capacho do Lau.

Seria feio trabalhar honestamente?
E vergonhoso ser idealista?
Causa estranheza o altruísmo?
Soa piegas tratar com a verdade?
E ter uma vida de dignidade
E dignificar assim o seu povo?

Tem coisa cheirando mal.
Os maus tomaram o poder.
Nós elegemos monstros
Pra conduzir e resolver.

Quem tem poder?
Poder pra quê?
Poder só pra corromper.

Corromperam a razão
Venderem a moral
Zombaram da verdade
Em bizarra letargia social

Viva a vida momentânea
Do êxtase do dinheiro fácil!
Do sangue sem valor
Que escorre do morro
Em gritos de horror.

E dos palácios construídos
Com mármores e vidros
Em conchavos vergonhosos
De políticos inescrupulosos
Que buscam poder...
Pelo preço que for

O justo se entristece
E o homem de bem range os dentes
Ao pranto do necessitado
E a fome das crianças magras
O terror do pai de família
Na mão de homens dementes

Filhos sois, políticos devassos
Do desterro e da maldição
Aves de rapina e carniça
A rir-se do sofrimento alheio

Hão de arder no inferno
Pelas vidas ceifadas
Em suas investidas imundas
Com estratégias desumanas
A atirar sem pudor e nem vergonha
O seu pais em cova profunda

Desse mar de infame e lama
Se ouvirá clamor e drama
Restarão vidas mutiladas
Aleijões de caráter e comportamento
Com sede de morte por sustento
Como fantasmas errantes
Com seus olhos flamejantes
Buscando também se impor
Batendo tão forte e covarde
Como a agressão que também sente

Qual será a paz de espírito
No dia em que os justos
Homens limpos de mãos e de mente
Tomando o poder com legitimidade
Lançar atrás das grades
A todo aviltante abutre
Para ter a paga devida
Pela destruição da vida
Por distorcer na mente em formação
Dos nossos jovens e crianças
O sentido da verdade e da justiça

E será pra nossa mente sossego
Saber haver lei sem engano
Para o bandido mais hediondo
Aquele que tendo a oportunidade
Negou agir com a verdade
E atender ao anelo dos povos
Por paz, justiça e igualdade

E em cárcere comum
Terão por companheiro de sela
O fantasma da consciência
(ainda que se duvide de sua existência)
A assombrar-lhe de noite e de dia
E ser-lhe-a por juizo severo
Em flagelo e tormento eterno

Pelo bem que não se fez
Pelo pão que se negou
Do pranto que não calou
Do direito que usurpou
E das vidas que violou.

NUVÉNS

O
O

Encontro-me quando alcanço as minhas verdades. Ainda que meia amarelas, não tão exatas, mas sinceras. Meus defeitos não são tão ruins, minhas virtudes tem fim. Vou me denunciar. Vou renovar meu vocabulário, vou tirar as roupas velhas do armário, vou completar meu álbum antigo, não vou mais me sabotar.
Volto ao meu encontro, antes bailarina, depois medicina. Hoje simplesmente eu. E desde sempre sonhos. E para sempre vejo, menina deitada no chão, vendo as nuvens passar.
O
O

RAJADAS

O
O

Rajadas de metralhadoras, rajadas de mentiras, guerrilha e sangue, senado, câmara e quadrilhas. Morre no morro aquele garoto tão tenro, morre sem chances no país do futuro. Um tiro na cabeça em horário estudantil. Na escola caindo os pedaços em estado sub-humano, transformada em barricada do cangaço urbano. Finda a luta do menino, morador da favela com sobrevivência extraída sob chuva e sol em dura lida de farol em farol. Mais um brasileiro executado entre bandidos e soldados, sem rosto, sem voz, sem vida... Quem disparou a arma? Quem fechou os seus olhos? Quem chorou no seu velório? Os burgueses fingem não ver, os políticos fazem discursos e a vida vai levando o mesmo curso e o descaso cobrando seu alto custo.
O
O

VILAREJO

o
o
Minha alma é uma cidade velha, habitada por minhas escolhas. Nesta cidade, tenho ruas belas, jardinadas. Colho sempre flores perfumadas e algumas vezes raras. Mas não está de todo saneada. Há ruas escuras, esburacadas. Me esquivo o máximo destes limites, mas nem sempre é possível.
É necessário passar por ali, ver os danos da enxurrada, a erosão da terra arrasada. Arrancar com mão e pá todo o entulho acumulado. Às vezes sozinha consigo pequenos bons progressos, mas na maioria das vezes é preciso auxílio. O trabalho é árduo, imprescindível. Administrar a cidade da alma é um desafio. Mas sei que caminho rumo ao progresso. Um dia, me torno uma cidade fortificada, devidamente ordenada, sem brechas, escombros ou pinchações nas faixadas.
o
o